        Carol
Violetas na Janela

Romance de Patrcia
Psicografia de VERA LCIA MARINZECK DE CARVALHO


Dedicatria
Um trabalho que temos a graa e oportunidade de fazer  nossa realizao. Dedicar a algum  demonstrar, reconhecer que eles tambm ajudaram de algum modo. A meus
pais Jos Carlos Braghini e Anzia Alba Marinzeck Braghini, que muito amo e aos quais muito devo.
Patrcia
As violetas no s enfeitaram a janela do meu quarto, mas tambm a do mundo novo que defrontava  minha frente. O amor permanecia alm do tempo e do espao.


Algumas Palavras da Mdium

        Patrcia  minha sobrinha, filha de minha irm. Tnhamos grande afinidade, ramos amigas.
        Na adolescncia, quase tudo que ela pensava, estando perto, captava seus pensamentos com facilidade.
        Chegamos a brincar com a telepatia. Uma vez, no stio de seus pais, fizemos uma experincia. Cada uma de ns ficou em um quarto, ela pegava um objeto e transmitia,
eu adivinhava. Deu certo, experimentamos com palavras, com exatido. S ela conseguia transmitir, eu captar.
        Como o acaso no existe, tenho a certeza de que nossos espritos sabiam da tarefa que faramos mais tarde.
        Patrcia desencarnou aos dezenove anos, deixou uma lacuna, saudades da presena fsica, mas a certeza de que no nos separamos.
        A vida continua, e  sobre esta particularidade, o prosseguimento, que ela vem amorosamente nos narrar, legando novos conhecimentos.
        De minha parte, sou grata, profundamente grata ao Pai por me permitir desfrutar de sua companhia enquanto trabalhamos.

        Vera

        So Sebastio do Paraso, MG, 1992.


Prefcio

        Conheci Patrcia encarnada. Era uma menina, de infante tornou-se uma linda moa. Alta, magra, loura com cabelos cacheados compridos, olhos azuis parecendo
pedaos do cu. Sorriso franco e alegre, maravilhava a todos. Mas no foi esta beleza perecvel que me chamou ateno. Era pura, delicada, cultivara a parte verdadeira,
que a acompanhou na desencarnao. Era Esprita. Tinha na Doutrina Esprita sua meta de viver. Inteligente, estudiosa, o conhecimento das verdades eternas era de
seu interesse. Ouvia as orientaes do seu genitor com profundo devotamento. Raciocinava sobre tudo que aprendia. Quando a conheci, soube que ia deixar o corpo fsico
jovem. Assim fez. Como uma flor colhida que enfeitava a Terra, veio nos encantar no Plano Espiritual.
        Incentivei-a a ditar aos encarnados. Como amante da Literatura, pedi a ela que narrasse aos nossos irmos na carne sua experincia. Como  agradvel a morte
do corpo nos surpreender com a conscincia tranquila, sem erros, vcios e com conhecimentos da Vida Espiritual.
        Para minha alegria, Patrcia aceitou. Para este evento, estudou. Tarefa que no foi nenhum sacrifcio. Ama aprender.
        Emocionado, apresento esta delicada alma que com sua simplicidade perfumar nossa Literatura Esprita.

Antnio Carlos

I
DESPERTANDO

      Por muitas vezes acordei para logo em seguida adormecer. Neste perodo desperta, observei o local onde estava. Era um quarto com paredes claras e uma janela
fechada. O local estava na penumbra. Sentia-me extremamente bem. Ouvia a voz do meu pai, ou melhor, sentia as palavras: "Patrcia, filha querida, dorme tranquila,
amigos velam por voc. Esteja em Paz." Embora estas palavras fossem ditas com muito carinho, eram ordens. Sentia-me protegida e amparada.
      Estava deitada numa cama alta como as do hospitais, branca e confortvel. Acordava e dormia.
      At que despertei de fato. Sentei no leito. Virei a cabea devagar observando o quarto e foi ento que vi ao lado do meu leito, sentado numa poltrona, um senhor.
Quando o olhei, ele sorriu agradavelmente.
      Apalpei-me, ajeitando-me entre os lenis alvos e levemente perfumados. Estava vestida com meu pijama azul de malha. Arrumei com as mos meus cabelos.
      "Onde ser que estou?" pensei.
      No conhecia o local e nem aquele senhor, que calmamente continuava a sorrir. No tive medo e nem me apavorei. Fiquei calada por minutos, tentando entender.
At que o risonho senhor me dirigiu a palavra.
      -Oi, Patrcia! Como se sente?
      -Bem...
      Pensei no meu pai. Senti-o. Interroguei-o mentalmente: "Papai, que fao?". "Calma, esteja tranquila, diante do desconhecido, procure conhecer; nas dificuldades
ache solues. Pense em Jesus. O Divino Mestre  a Luz do nosso caminho." Papai respondeu dentro de mim, era como se pensasse com a voz dele. Senti coragem e nimo,
certamente fluidos que me enviava. Confiei. Voltei a cabea na direo daquele senhor, olhei-o fixamente e indaguei:
      -Como sabe meu nome?
      -Patrcia  um lindo nome, conheo-a h tempo.
      -Onde estou?
      -Entre amigos.
      Realmente sentia assim. Estava calma. Ter acordado num lugar desconhecido e com aquele estranho ao meu lado pareceu-me natural. Logo eu que sempre fui to
caseira e avessa a estranhos. Interroguei-o novamente.
      -Como se chama?
      -Maurcio. Sou amigo de seu pai.
      - mdico? Trabalha no nosso Centro Esprita?
      No me respondeu, seu olhar tranquilo dava-me calma. Observei-o detalhadamente.  ruivo, com sardas pelo rosto, olhos verdes, boca grande e sorriso agradvel.
Deixou que eu o observasse. Minutos passamos em silncio. At que ousei perguntar:
      -Estou sonhando ou desencarnei?


II
INDAGANDO

      Aquele estranho, que por afinidades senti um amigo a velar por mim, continuava a sorrir. Olhou-me nos olhos. Lembranas de acontecimentos vieram  minha mente.
      Ia levantar, era domingo, inverno, final de frias. Sentei na minha cama para trocar meu pijama quente por outra roupa, quando senti uma tonteira. Minha cama 
estava encostada na parede e foi nela que apoiei a cabea. Parecia que algo explodia dentro de minha cabea. Estas sensaes foram por segundos. Vi e ouvi por instantes, 
sem definir quem fosse, pessoas ao meu lado.
      -Calma, Patrcia, calma! - algum falou carinhosamente.
      Senti que seguraram minhas mos, como tambm senti mos sobre minha cabea.
      -Dorme, dorme...
      Dormi realmente. As lembranas acabaram como por encanto. O fato  que estava num quarto que no era o meu, diante de Maurcio. Olhei para todos os lados. 
Entendera, no foi preciso ele responder, Maurcio somente me ajudou a lembrar. Desencarnei. Estava to calma que estranhei. Suspirei, o melhor  assumir. No sabia 
que iria desencarnar um dia? Voltei a indagar Maurcio, como se fosse um assunto banal.
      -Que aconteceu? De que desencarnei?
      -Uma veia rompeu no seu crebro. Tem que haver um motivo para o corpo morrer quando  vencido o prazo de o esprito ficar encarnado. Foi por um aneurisma cerebral.
      -Onde estou?
      -Na Colnia So Sebastio. No Hospital. Na parte de Recuperao.
      -Recupero-me de qu?
      -De nada, voc est tima, aqui est somente para se adaptar. Patrcia, lembra de sua av Amaziles? Ela est aqui e quer v-la.
      A imagem de vov veio  minha mente. Gostava muito dela. Esteve muito doente, piorara e fora para o hospital. Quando desencarnou estvamos, seus netos, a orar 
para que sarasse. Ao saber que desencarnou, pusemo-nos a chorar. "Como? - minha irm indagou -Estvamos a orar para que sarasse." Minha me respondeu: "Suas oraes 
foram ouvidas. Jesus, vendo que ela no poderia sarar no corpo, levou-a para que sarasse no Plano Espiritual." Senti, sentimos muito seu desencarne. Agora, ali estava 
ela querendo me ver. Corrigi meu pensamento. Gostava? No! Gosto muito dela!
      -Por favor, Maurcio, faa-a entrar - disse emocionada.
      Vov entrou no quarto de mansinho. Estava diferente, mais bonita, esperta e sem seus grossos culos. Beijou-me na testa e nos abraamos demoradamente. Meus 
sentimentos naquele momento ficaram confusos. Sentia alegria em v-la, mas, tambm, tive a certeza de que realmente tinha desencarnado. Senti um vazio e um ligeiro 
medo. Percebendo, vov desprendeu-se, sentou-se ao meu lado, no leito. Sorriu feliz dizendo:
      -Patrcia, aqui  lindo! Logo poderei mostrar a voc lugares maravilhosos. Voc est to bem! To linda! Necessita de alguma coisa? Quer que lhe faa algo? 
Voc...
      -Vov - interrompi - como est mame? Papai? Juninho? Carla e o nen? (Juninho e Carla so meus irmos. Carla, quando desencarnei, estava grvida do seu primeiro 
filho.)
      -Esto bem. So Espritas. O Espiritismo d aos encarnados o entendimento da morte do corpo. Compreenderam os acontecimentos e sabem que seu desencarne lhe 
trar muitas felicidades. Juninho est bem, Carla tambm: ir ter um belo menino. Seu pai  firme como a rocha, seu saber  o leme a dirigir o barco do seu lar.
      -Vov, eles no sentiram meu desencarne?!
      -Sentiram. Claro que todos sofrem sua ausncia. Se ajudam mutuamente com muita compreenso. Fazem de tudo para mandar a voc o carinho e o amor que sentem. 
Um dia vocs iro se encontrar, como agora se encontra comigo. Ver que nunca estiveram separados. O amor une.
      -Vov, por favor, cuide deles, o senhor tambm, Maurcio. Ajudem-nos. Mame deve estar triste. Ser que chora por mim? Ela poder no querer se alimentar.
      Maurcio, desde que vov entrara no quarto, ficou sentado na poltrona em silncio. Como me dirigi a ele, rogando ajuda, tentou tranquilizar-me.
      -Patrcia, no seu lar terreno eles s nos pedem que cuidemos de voc. A menina nos pede para cuidar deles. O carinho sincero que os une  lao forte. Cuidaremos 
de voc e deles. Estarei sempre com voc, at que se adapte bem me ter por companhia. Estou encarregado de velar por voc.
      -Obrigada - respondi tentando sorrir, mas acho que fiz foi uma careta.
      Foi me dando um sono, uma vontade irresistvel de dormir. Deitei. Vov ajudou a me acomodar. Meus olhos foram fechando. Os dois sorriram para mim. Vov me 
beijou na testa, segurou minha mo.
      -Acho que vou dormir...

III
PRIMEIROS CONHECIMENTOS
      
      Acordei bem disposta, estava sozinha, as lembranas vieram-me  mente. "Bem - conclu - se desencarnei, tenho que me adaptar rpido e aprender como viver desencarnada".
      Tinha lido muitos livros espritas, gosto muito de ler. E me veio  lembrana o livro Nosso Lar, de Andr Luiz. O autor narra bem como  viver numa Colnia. 
E, se estava numa Colnia, s tinha motivos para agradecer. Desencarnei e no vaguei, no sofri, no fui para o Umbral. Estava sendo socorrida e me sentia tima.
      Observei curiosa o quarto. Era simples, limpssimo, com um armrio, uma mesinha, duas cadeiras e uma poltrona. Na parede um espelho. Mas havia duas portas 
e uma janela.
      -Ser que levanto? - falei baixinho.
      Aps uma leve batidinha na porta, Maurcio entrou sorrindo. Me deu vontade de perguntar por que ria tanto, mas no fiz, preferi sorrir tambm.
      -Bom dia, menina Patrcia. Como est?
      -Bom dia.
      -Voc tambm tem um lindo sorriso. Gosto de sorrir, fico menos feio e no assusto tanto. Depois sou to feliz...
      Senti meu rosto queimar, devo ter ficado vermelha, ele pareceu nem notar e continuou a falar alegremente.
      -Acordou disposta, est muito bem. Levante se quiser e fique  vontade.
      -Sinto muito sono, acordo e quero dormir novamente. Dormi muito? Quantos dias?
      -Voc desencarnou h dezesseis dias. Dorme muito porque estamos atendendo a seu pai, que nos pediu que a adormecssemos nestes dias.
      -Por qu?
      -Achamos que  melhor para voc. Assim, neste perodo difcil que  para os encarnados a perda de um ente querido, voc dormindo no sente.
      -Esto sofrendo muito?
      - natural que sofram. Seu desencarne foi rpido, no esperavam, voc estava to bem. No deve se preocupar, o tempo se encarrega de suavizar todas as dores.
      -Acho que vou dormir de novo.
      Acomodei-me e dormi. Meu sono era tranquilo e gostoso. Quando acordei, estava s. Orei com f, agradeci ao Pai o muito que recebia, roguei a Jesus amparo a 
minha famlia, pedi consolo a eles. Eu os amava e era amada. Se eles queriam que estivesse bem e feliz, eu desejava alegria a eles. Orei pensando em todos, um de 
cada vez. Senti mame triste. Ao pensar em papai, senti-o como se estivesse na minha frente a dizer com sua voz forte: "Patrcia, minha filha, no tenha d de voc, 
no deixe a autopiedade lhe esmorecer. Seja forte, quero-a alegre. Sorria! A vida  bela, estando c ou a no importa, o que precisamos  estar com Deus. Amigos 
cuidam de voc, receba seus carinhos. Fortalea-se, no tema. Voc est bem, esforce-se por ser feliz. Estaremos sempre juntos. Voc no deve se importar com a perda 
do seu corpo carnal, deve entender que a vida lhe  grata. Ore. Sinta nosso carinho e sorria".
      Fiquei animada, levantei, abri a outra porta e deparei-me com um banheiro bem bonito, limpo e simples. Abri a torneira da pia, a gua com a temperatura ambiente 
era agradvel e lmpida. Lavei minhas mos e rosto. Olhei no espelho. Estava com tima aparncia. Ajeitei meus cabelos. Voltei ao quarto, abri o armrio e deparei-me 
com algumas de minhas roupas. No gostava de ficar com roupa de dormir, escolhi uma cala jeans e uma camiseta amarela e me troquei. Senti-me muito bem. Desencarnei 
no inverno, a temperatura estava bem fria, mas ali no sentia frio.
      Ouvi batidas na porta, logo em seguida Maurcio entrou, desta vez fui eu quem sorriu. Trouxe uma bandeja que colocou em cima da mesa.
      -Que alegria v-la to bem!
      -Maurcio, no estamos no inverno? Aqui no faz frio?
      -Nem frio, nem calor. Nas Colnias a temperatura  sempre suave e agradvel. No Umbral, a temperatura varia como para os encarnados.
      Descobriu a bandeja, continha alimentos.
      -Patrcia, venha comer.
      -Pensei que no ia mas necessitar de alimentos.
      -A impresso de encarnado no se perde da noite para o dia.
      -Voc se alimenta?
      -No, - sorriu - no desta forma. Lembro-a que o perisprito de que agora est revestida  ainda matria. Somente aos poucos deixar de se alimentar e, para 
isto,  necessrio aprender a se prover de outras fontes de energia. Se quiser se banhar, fique  vontade, a sala de banhos ou banheiro est logo ali. Voc, como 
tinha bons hbitos de higiene,  natural, s deixar de fazer o que estava acostumada quando aprender a se higienizar pela fora de vontade.
      -E estas roupas? So minhas. Como vieram parar aqui?
      -Certamente no so as mesmas. Encarnada vestia roupas da matria. Aqui so diferentes, so roupas prprias para desencarnados. Estas so cpias das que tinha. 
Plasmei para agrad-la. Troque-as  vontade.
      -Obrigada. Acontece assim com todos que desencarnam?
      -No. Voc, Patrcia, veio ter na Colnia por mrito e afinidades. Fez, encarnada, muitos amigos aqui,  querida. Amigos so para ajudar. No seu caso, tentamos 
agrad-la. Infelizmente no  para todos que podemos fazer estes agrados. A maioria veste roupas confeccionadas com fluidos mentais, fabricadas na Colnia. Como 
esta minha. Patrcia, somos companheiros de trabalho de seu pai. Ele nos pediu, confiou-nos voc e espero cuidar bem da menina.
      -No fui para uma enfermaria.
      -Se fosse, no acharia ruim. Talvez por no desejar exclusividade que podemos fazer tudo isto por voc. Quartos individuais so para poucos somente. Alimente-se.
      Havia na bandeja frutas, doces e pes. Peguei uma pra, estava deliciosa, comi-a num instante. Comi de tudo para experimentar. As frutas so saborosas, os 
pes macios e deliciosos.
      Maurcio me observava sempre sorrindo. Acabei de comer e o olhei. Queria tomar banho, estava com vergonha de dizer. Parecia to estranho! Desencarnei e estava 
me alimentando e sentia vontade de tomar banho.
      -Menina Patrcia - disse meu amigo - fique  vontade. Tome banho, escove os dentes, use o vaso sanitrio. Vou levar a bandeja, volto daqui a uma hora. Se necessitar 
de ajuda, toque a campainha.
      Entrei no banheiro e tomei um delicioso banho de chuveiro. Sempre gostei de banhos de gua quente e a gua estava como queria. O chuveiro  um pouco diferente 
dos que conhecia,  regulado por um boto giratrio. (Aqui os aparelhos a que me refiro no so do padro geral. Para cada local so usados os que mais convm e 
so teis.)
      Lavei-me da cabea aos ps. Coloquei a mesma roupa. Senti-me muito bem. Penteei meus cabelos. Meus cabelos longos e ondulados nos davam, a minha me e a mim, 
muito trabalho. "Que vou fazer agora?" pensei. Mas, incrvel, eles ficaram como queria.
      Maurcio, como prometeu, voltou.
      -Oi Patrcia!
      -Maurcio, -disse entusiasmada - meus cabelos ficaram como eu quis. Parece que obedecem  minha vontade.
      -Ser assim, voc quer, sua vontade se concretiza. Ter, sem trabalho, seus cabelos como voc gosta.
      Como me alimentava, tinha as necessidades fisiolgicas e para isto usava o vaso sanitrio. No tive mais menstruao, isto  fator do corpo de carne. Mas soube 
que algumas mulheres ainda tinham como reflexo do corpo. (Mulheres que vagam, nos Umbrais, tm mais o reflexo do corpo. Muitas se iludem e se julgam encarnadas e 
vivem como tal, com todas as necessidades do corpo.)
      Aos poucos, fui dormindo menos, acordava com fome, tinha sede. Alimentava-me de frutas, pes e caldos ou sopas de legumes. Gostei muito de todos os alimentos, 
tudo muito saboroso e energtico. A gua cristalina  a maior fonte de energia. Vov recomendou que, todas s vezes que tomasse gua, pensasse que estava me alimentando. 
Tomava todos os dias meus gostos, os banhos e trocava de roupa. Encarnada, trocava de roupa, que era lavada e passada. Vov levava as roupas que trocava, trazia-as 
depois limpas e as colocava no armrio. Tempos depois, vov me explicou que levava minhas roupas e, com sua fora mental, as limpava deixando como gostava de us-las. 
Quando aprendi a higienizar meu corpo pela vontade, aprendi tambm a limpar minhas roupas.
      Estava calma e tranquila. Tambm, com tanto carinho, quem no ficaria?

IV
AS VISITAS
      
      Abri a janela, que surpresa agradvel! A vista dava para o ptio rodeado de rvores e flores. Pssaros coloridos cantavam alegres nos galhos das rvores e 
algumas borboletas de rara beleza voavam distradas. Mas me encantei foi com o cu, era dia.  tarde, o firmamento  de um azul maravilhoso como nunca tinha visto. 
Distra-me tanto que fiquei tempo olhando tudo extasiada com tanta beleza.
      -Patrcia - Maurcio me chamou baixinho.
      -Oi, Maurcio!
      -Chamei-a baixinho temendo assust-la.
      -Maurcio, estou encantada com tanta beleza. Nunca vi o cu to lindo!
      - o mesmo dos encarnados. V agora diferente e acha mais bonito, porque sua percepo visual  muito maior.
      -A Colnia So Sebastio  do tamanho do Nosso Lar? (Nosso Lar  a Colnia Espiritual que o autor Andr Luiz descreve com muito encanto no livro Nosso Lar, 
psicografado por Francisco Cndido Xavier.)
      -No, a nossa Colnia  pequena. H Colnias pequenas, mdias e grandes como Nosso Lar. So muitas Colnias espalhadas pelo Brasil e pelo mundo. So como as 
cidades de encarnados. Elas tambm diferenciam na sua administrao, mas procuram ter todos os ministrios, ou seja, rgos para melhor administr-las. Para que 
entenda, so como secretarias nas cidades de encarnados. Todas as Colnias so muito bem organizadas e todas oferecem atrativos maravilhosos para os que esto aptos 
a ver e a sentir. Tendo autorizao para sair do quarto, vov levou-me para passear naquela parte ou ala do Hospital onde estava localizado meu quarto. Andava observando 
tudo, desde os corredores, os outros quartos e foi agradabilssimo ir ao ptio. Sentamos num banco, olhava tudo curiosa. As rvores so sadias, de um verde bonito, 
as folhas harmonizam com o conjunto. Os pssaros no nos temem, vm at ns quando chamados.
      -Vov, veja este, que lindo!  azul! Aqui tudo  mais bonito, o sol, a lua, as estrelas!
      -O nosso estado de esprito influi, levando-nos a ver tudo mais bonito. Os animais, aqui, so amados, protegidos, so amigos. Temos nas Colnias animais domsticos 
e muitos outros que ajudam os socorristas. No Educandrio, h muitos animais que encantam as crianas. No bosque h vrias espcies, todas dceis e amigas.
      Gostei muito das flores, h pela Colnia muitas trepadeiras floridas de muitas variedades.
      Recebi muitas visitas, eram amigos, parentes e trabalhadores desencarnados do Centro Esprita do qual fiz parte. Eram visitas rpidas e agradveis, todos procuravam 
me agradar. Traziam presentes: frutas, livros, flores, bnus-horas para que pudesse logo que possvel ir ao teatro, palestras e em outros lugares de lazer. Foi agradvel 
conhecer, Antnio, Alexandre, Artur e tantos amigos, companheiros desencarnados, trabalhadores do nosso Centro Esprita. (Amamos, minha famlia e eu, o Centro Esprita 
que eu frequentava e eles frequentam. E carinhosamente chamamos a este local de "nosso".)
      Artur me trouxe um mapa da Colnia. Em quase todas as Colnias, h estes livretos, que mostram como elas so e onde esto localizados seus prdios. S no 
vi estes mapas nos Postos de Socorro, por no haver necessidade, pois so pequenos. Fiz uma lista de lugares aos quais queria ir e do que gostaria de fazer. A lista 
ficou enorme. Conforme ia conversando com os amigos que comentavam as belezas dos lugares, ia marcando no meu caderninho. Queria conhecer principalmente os locais 
de estudo.
      -Vov - indaguei -, e meus avs, ainda no os vi?
      -Esto encarnados,  a lei da vida, ora aqui, ora l...
      Estava gostando realmente de estar desencarnada.
      Numa tarde, estava s, recebi outra visita.
      -Boa tarde!
      Entrou no quarto, ofertando-me um presente, um novo amigo trajado de branco. Sorrindo me estendeu a mo apresentando-se.
      -Sou Antnio Carlos!
      -Que prazer! Como vai tia Vera?
      -Todos vo bem. E voc?
      A agradvel conversa durou alguns minutos. Aps, ele se despediu, prometendo voltar novamente.
      Abri o presente: dentro de uma caixa de plstico duro e transparente estavam "algumas coisas". Nunca tinha visto. Sem saber o que era, fiquei a pensar: so 
doces? Bombons? Tinham formato de pequenos botes azuis, mais escuros no centro clareando nas pontas, com uns pequenos cabinhos. Abri a caixa. Examinei-os, o cheiro 
era agradvel. Experimentei, gostei e comi.
      Logo aps, Maurcio veio me ver.
      -Ento, Patrcia, gostou das flores que Antnio Carlos lhe deu?
      -Flores?! - respondi fazendo careta. -Eram flores?
      -Sim, de uma espcie de rara beleza, magnetizadas para no secar. Que fez com elas?
      -Comi...
      -Comeu?!
      Maurcio deu uma boa gargalhada. Ao me ver sem "graa", ficou srio. Pensei: E agora? Me faro mal?
      -No - respondeu meu amigo adivinhando meus pensamentos. -As flores no lhe faro mal. Imagina que Antnio Carlos ficou tempo a pensar o que ia lhe trazer, 
a colher as flores em Plano Superior e a magnetiz-las. Elas no lhe faro mal, s que no era para com-las. Mas, me diga, so gostosas?
      -So! Nunca vi flores azuis daquele modo, pensei que fossem doces confeitados.
      Comecei a rir, rimos. Sempre fui distrada. Lembrei de Carla, minha irm, ela estava sempre a me chamar ateno sobre minha distrao. Se ali estivesse iria 
dizer com certeza "Esta Patrcia!"
      -Maurcio, estou bem e quero ser til, acho que para evitar "estas ratas" necessito aprender.
      -Calma, menina, acaba de desencarnar, tudo tem seu tempo. O recm-nato de hoje ser o homem de amanh. Ir sair deste quarto e ir morar por enquanto com sua 
av. Ela estar de licena do trabalho e ficar com voc, lhe mostrar a Colnia, seus jardins e flores. Depois, aprender e ser til como quer.
      Vov, logo aps a visita de Maurcio, veio me ver toda contente.
      -Patrcia, amanh cedo virei busc-la para morar temporariamente comigo. Moro na parte residencial da Colnia, numa casa muito bonita com cinco amigas. Todas 
muito simpticas. A casa  grande, cada uma de ns tem um quarto privativo. Este quarto  mais um local onde guardamos nossos pertences, um cantinho particular. 
Ter um s para voc.  como este: quarto e banheiro. Levaremos suas roupas. Poderei ficar com voc e a levarei para passear.
      -Vov, a senhora gosta daqui?
      -Muito.
      -Ir deixar seu trabalho para ficar comigo?
      -No de todo. Trabalharei enquanto voc dorme, sero algumas horas a menos. Mas ser por pouco tempo.
      -Vov, que faz?
      -Trabalho no hospital, em outra parte, onde esto os realmente enfermos do esprito.
      -Obrigada! Todos so to carinhosos comigo.
      Vov sorriu despedindo-se. Ao ficar sozinha, papai veio  minha mente: "Minha filha, no se aflija por nenhum motivo. No tema o desconhecido. Deus est em 
toda parte, sinta-o. Aceite com alegria o que lhe est sendo ofertado. O tempo passa rpido, logo ter no Plano Espiritual seu lar, seu verdadeiro lar."
      Peguei um livro que Maurcio me presenteara para ler. Estava quase no final.
      Lembrei-me que, quando desencarnei, estava lendo um romance Esprita.
      Parecia que minha vida no mudara em nada, ou mudaria?

V
MUDANA
      
      No outro dia, de manhzinha, vov veio me buscar, acabou ajudando-me. Colocamos meus pertences numa sacola de lona.
      -Agora vamos, Patrcia. Iremos devagar, assim ir conhecendo a Colnia.
      -No vou me despedir de ningum? Agradecer?
      -Os amigos que cuidaram de voc continuaro a v-la. Maurcio continuar ajudando-a. No necessita nem se despedir nem agradecer. Voc ir gostar de minhas 
amigas, todas trabalham, vm em casa somente algumas horas por dia. Esto nos esperando em casa para lhe dar as boas-vindas. A nossa casa  tambm sua e quero que 
se sinta  vontade. Ficar conosco at que inicie o curso que ir fazer. Neste curso, aprender como  ser e viver desencarnado.
      Vov me puxou pela mo, falava me animando. Olhei pela ltima vez o quarto e samos. As palavras de papai soaram forte dentro de mim: "Coragem, no entristea, 
receba o que lhe oferecem com alegria."
      Passamos por outro corredor e fomos  recepo. Fiquei encantada com um bonito quadro pintado a leo, que enfeitava uma de suas paredes. O artista retratou 
Jesus ensinando, procurou descrever a formosa cena do Sermo da Montanha. Vov, pacientemente, por minutos, esperou que contemplasse o quadro. Samos do prdio. 
O hospital tem vrias entradas, ele  todo rodeado por um bem cuidado jardim, com rvores frondosas e flores encantadoras.
      Chegamos  rua. As ruas so largas, arborizadas e limpas. Observei o cu, lindo de um tom de azul que no tenho palavras para comparar aos encarnados. Dei 
um longo suspiro. Senti-me livre e pensei: se pudesse, voaria; a sensao de liberdade  muito forte.
      -Vov, no posso ir voando? Parece que posso sair e voar.
      -Poder voar quando aprender a volitar. Voc encarnada se desprendia do corpo, quando este dormia, e volitava. Voc sabe, ir recordar. Ensin-la-ei outro 
dia.
      Por algumas vezes, puxei o ar com fora.  delicioso respirar o ar puro, perfumado e leve.
      -Vov, no  estranho estar respirando? Como a senhora disse, logo estarei volitando, voando, mas ao mesmo tempo respiro, sinto meu corao bater.
      -No  to estranho assim. Acredito, Patrcia, que voc sabe muito mais do que eu. Quando encarnada no tive estudos, entendia pouqussimo do Plano Espiritual. 
Agora, aqui, tenho estudado, aprendo com alegria. Voc sabe que ns desencarnadas, estamos revestidas pelo perisprito. (A substncia do perisprito no  a mesma 
em todos os globos;  mais eterizada em uns do que em outros. Ao passar de um para outro mundo, o Esprito se reveste da matria prpria de cada um, com mais rapidez 
que o relmpago. O Livro dos Espritos, Allan Kardec.) Nosso esprito ainda veste esta roupagem que  constituda de corpsculos fludicos de consistncia varivel. 
A impresso do corpo  forte.
      -Quero aprender tudo que puder!
      Encontramos com muitas pessoas, cumprimentavam-nos alegremente. Entendi que a maioria transitava para o trabalho.
      Paramos vrias vezes para que contemplasse ora os pssaros, ora flores. Pelas ruas e jardins existem muitas rvores frutferas. So de muitas espcies. Algumas 
conhecia, outras s de nome, so rvores oriundas da Regio Norte, Nordeste e de outros pases. Nas Colnias seus hspedes e moradores aprendem a respeitar a natureza, 
ningum estraga nada. As plantas so bem cuidadas e seus frutos so colhidos no tempo certo. At hoje, gosto de ver estas rvores, conheci todas as espcies existentes 
na Colnia e experimentei de seus frutos. So muito saborosos.
      Paramos numa praa de forma arredondada, com lindos canteiros floridos e bancos confortveis. Sentamos e fiquei muito tempo olhando com admirao para um chafariz 
com formato de uma rosa, ladeada por lindos peixes que soltam gua pela boca. A rosa e os peixes parecem ser de plstico duro fosforescente. Coloridos, as cores 
combinam harmoniosamente. Em toda a praa vibra uma msica suave.
      Vov, vendo-me a observar as pedras do chafariz, disse contente:
      -Ontem, ouvi uma linda palestra e, agora, vendo-a olhar as pedras, recordei-a.
      -Vov, me fale desta palestra, o que de interessante ouviu?
      -Tentarei lhe explicar com minhas palavras o que achei de mais interessante, o que esse sbio orador exps, nos presenteando na noite de ontem. Jesus, nas 
suas clebres parbolas, nos fala das vrias situaes e circunstncias que o ser humano passa durante o seu perodo evolutivo, nas sua permanncia no orbe terrestre. 
Falando de rochas nos vem  lembrana seu ensinamento que diz ser sbio o homem que construiu a casa sobre a rocha. O vendaval, a tempestade da mente e a dos sentidos 
atingem a todos os homens indistintamente, maus e bons. Estas circunstncias atingem a toda a humanidade. Jesus sempre usou smbolos fsicos para colocar neles um 
grande significado espiritual. A rocha  o smbolo de firmeza e da imutabilidade, pois podemos quebr-la, fragment-la, mesmo assim sua natureza foi e ser sempre 
rocha. Assim  o homem consciente de que no  apenas uma personalidade passageira. Sabe que sobrevive  vida do corpo mortal, suporta, ou melhor dizendo, tira proveito 
dos vendavais dos interesses temporais e das tempestades dos desejos de satisfao material para solidificar mais ainda a sua unio com Deus. O esprito precisa 
de um corpo para existir e este corpo  como, nos dizeres de Jesus, a sua casa.  sua funo ir transformando-a at sua espiritualizao. Nesta posio seu corpo 
no lhe ser um peso, nem fonte de seus conflitos. Pois, se espiritualizando, seu objetivo ser amar e servir a Deus.
      -Que bonito! Vou gostar de ir s palestras.
      -Vamos, Patrcia - vov me convidou a continuar.
      Levantei e a segui. Voltaria ali com certeza, porque num lugar to belo e agradvel poderia ficar o dia todo contemplando.
      Embora encantada com tudo o que via, sentia ser a Colnia um lugar querido e conhecido. Retornara ao lar eterno, o verdadeiro.
      -Patrcia, ali est o Teatro; logo a trarei para que conhea.  o Salo de Conferncias.
      -Salo de Conferncias ou Teatro?
      -Logo entender que aqui ouvir termos diferentes para designar um local. Termos divergem aqui e de uma Colnia para outra, como de regio para regio. Por 
exemplo: salas ou quartos de banho para banheiro. Departamentos e Ministrios. So muitos os termos,  s prestar ateno.
      Vov foi conversando, dizendo como era a casa, os nomes das amigas, etc.
      Passamos por uma avenida toda arborizada, com casas dos dois lados. As casas, todas com jardins e muitas flores.
      -Vov, no  tempo de plantas florirem assim. Aqui sempre h flores?
      -Temos as flores a enfeitar e a nos alegrar em todas as pocas do ano. Cuidamos das plantas com carinho. Os moradores cuidam das de suas casas. Aqui elas duram 
mais, so alimentadas pela mente de quem plantou.
      Ela sorriu me animando. Paramos. A minha frente estava uma casa muita bonita, circundada por um pequeno jardim, com muitas flores a bailar com a brisa suave. 
Sorri, amei aquela casa.
      -Entremos - vov disse pegando minha mo.
      Atravessamos o jardim e uma pequena rea coberta. Vov abriu a porta de vidro. Na sala de visitas, estavam as moradoras. Reunidas esperavam-nos para me dar 
as boas-vindas. Sorrindo, foram dizendo seus nomes.
      -Oi, Patrcia, sinta-se  vontade.
      -Seja bem vinda, menina, queira Deus que a tenhamos por muito tempo.
      Vov no exagerou, suas amigas eram agradveis e simpticas. Observei a sala: era grande, mobiliada com bom gosto, sem exagero, os mveis parecidos com os 
que usam os encarnados. Sofs, poltronas, cadeiras, mesas, vasos de flores, quadros de bom gosto enfeitavam as paredes de cor clara. Vendo-me meio vexada. Vov Amaziles 
veio em meu auxlio:
      -Patrcia, voc necessita descansar. Venha conhecer a casa e seu quarto.
      A sala enorme dava para uma outra com uma mesa e vrias cadeiras. Nesta segunda sala, uma porta dava para uma rea e outra, para um corredor que leva aos quartos.
      Achei muito bonitos os lustres. Diferentes e prticos. Nas Colnias, Postos de Socorro, quando  dia na Terra para os encarnados  tambm aqui.  noite vemos 
estrelas, lua,  tambm escuro. A Colnia,  noite,  iluminada por luz artificial, a energia usada  solar e de outra fonte que os encarnados nem imaginam ainda. 
As ruas, avenidas, praas so bem iluminadas, no so usados postes como para os encarnados.  como se a Colnia fosse uma sala e uma s lmpada a clareasse. Os 
prdios tm lustres para cada cmodo, como nas residncias. A claridade  controlada para forte, mdia e pouca claridade. As pessoas a controlam conforme suas necessidades. 
As noites nas Colnias so de rara beleza. A primeira vez que vi a Colnia iluminada, passei horas a contempl-la. As rvores, as flores, tudo parece quietar e adormecer. 
No h cantos escuros.
      -Aqui est seu quarto! - disse vov.
      Ela abriu a terceira porta do corredor e ali estava meu quarto. Achei lindo. Arejado, grande, com um lustre belo e delicado em formato de boto de rosa. Tinha 
uma cama, armrio, uma mesa-escrivaninha, duas poltronas e uma porta que dava para um banheiro. A decorao era toda cor-de-rosa bem clarinho. Meus olhos fixaram-se 
na janela. Encantei-me com a maravilhosa surpresa.
      A janela estava aberta dando a viso bonita da parte direita do jardim. A janela tem um delicado beiral de madeira clara e nela estavam vrios vasos de violetas. 
Vasos floridos, com violetas coloridas e lindas.

VI
VIOLETAS NA JANELA
      
      Lembranas vieram-me  mente. Recordei dos vasos de violetas de minha me, que enfeitavam os vitrs de nossa cozinha. Pareciam as mesmas.
      -E so! - disse vov - Anzia plasma com muito amor as violetas para voc. So rplicas das que enfeitam a cozinha do seu lar terreno.
      -Vov, como isto  possvel? - indaguei admirada.
      -Sua me muito lhe ama e tem muita saudade. Saudade esta que  um amor no satisfeito pela ausncia do ser amado. Ela emana continuamente este amor e saudade 
por voc. Ela no desejava ou esperava sua vinda. Est se esforando para no prejudic-la, assim ela canaliza seu carinho e oferta as flores a voc.  uma maneira 
que ela encontrou para demonstrar seu amor.  uma oferta contnua. Com nossa pequena ajuda, de seus amigos aqui, estes fluidos foram e so condensados e a esto: 
maravilhosas violetas.
      -Vov, por que a senhora diz meu lar terreno?
      -Podemos ter muitas moradas. Voc  amada. Cada corao que nos ama  como um lar a nos confortar. Poderia dizer ex-lar. Mas, par todos, ele ser sempre seu. 
No  a casa terrena na sua moradia fsica, mas um lar cheio de amor, onde  lembrada com alegria,  filha, irm, tia e amiga e no a que foi.
      Aproximei-me das violetas, sua emanao fortaleceu-me. Vieram com um recado: "Patrcia, quero-a feliz! Amamo-la, amo-a! No desanime, viva com alegria. Que 
estas violetas enfeitem onde voc est, onde ir passar a maior parte do tempo".
      Aquelas florezinhas delicadas, coloridas, saudavam-me.
      Vov me deixou sozinha.
      Mame gosta muito de flores, cuida delas com carinho. No poderia ter recebido melhor presente. Por alguns minutos fiquei a recordar acontecimentos, histrias 
dos vasos, dela plantando e regando as flores. De sua risada alegre, de seu carinho especial.
      Senti-me fortalecer. Sorri contente. O amor forte e sincero de minha me acompanhava-me protegendo como sempre, dando-me coragem e alegria. Amor de me  como 
um farol a iluminar seus entes queridos e a perfumar suas existncias. As violetas encantavam-me, no s enfeitariam a janela do meu quarto, mas a janela do mundo 
novo que defrontava a minha frente
      Violetas na janela..
VII
TE
      
      Meu novo lar era muito agradvel, gostei demais. Fiquei como filha e neta das senhoras amigas da vov. Agradavam-me oferecendo mimos, distraam-me com conversas 
interessantes. Procurei ler bastante e dei longos passeios pela Colnia. Pelo que lera quando encarnada, imaginava as Colnias, lugares maravilhosos, mas v-las 
ao "vivo"  muito mais emocionante. s vezes, extasiava-me com tanta beleza. S no tinha ainda ido conhecer a outra parte do hospital, onde esto os doentes mais 
necessitados.
      Comparo a Colnia So Sebastio com uma cidade de porte mdio, sem os excessos de luxo ou de pobreza. As casas so do mesmo nvel, diferenciando de tamanho, 
todas tm jardins e muitas flores. Tudo muito organizado, seus administradores visam somente ao bem comum.
      As visitas continuaram, de parentes, pessoas que foram beneficiadas por meu pai, pelo nosso grupo Esprita. Recebi muitas oraes, vinham at mim como recados, 
recebi oraes de pessoas que nem conheci. Retribu cada prece a mim dirigida, orava agradecendo o carinho com que me vi cercada.
      Artur, companheiro desencarnado de meu pai, vinha sempre visitar-me,  alegre, me respondeu quando o agradeci.
      -Louvado seja o Pai, que nos permite fazer o Bem pelo muito que recebemos.
      Artur me presenteou com uma espcie de televiso, ele instalou-a no meu quarto. Este aparelho tem outro nome cientfico aqui, mas como conhecemos a televiso 
e como  relativamente parecido com ela, chamamo-lo assim.  um aparelho mais leve e bem mais equipado. Ligou-o e sintonizou-o em minha casa. Pude ver todos meus 
familiares. Todos estavam bem, mas achei minha me abatida e triste. Tinha permisso de v-los por alguns minutos por dia.
      -Todos aqui podem ver seus familiares? - indaguei a Artur.
      -Infelizmente no, e por vrios motivos. Nem todos tm o equilbrio para ver sua famlia. Nem todos merecem este presente.
      V-los foi grato ao meu corao. Amenizava a saudade.
      Em todas as residncias h um aparelho como este, s que no est sintonizado nos encarnados. Na casa da vov, est na sala. Transmite o noticirio da Colnia, 
Postos de Socorro, Umbral e de outras Colnias, do Brasil e do mundo. Notcias do Plano Espiritual e as mais importantes do Plano Fsico, mas sem sensacionalismo 
e mentiras. Transmite oraes belssimas de convidados de esferas superiores, peas teatrais, palestras e as apresentaes dos corais.
       muito agradvel, na casa de vov, todos gostam de assistir  programao que a Colnia oferece.
      Vov me apresentou Frederico. Disse que era um amigo. Veio nos visitar, presenteou-me com um lindo ramalhete de rosas coloridas.
      -Oi, Patrcia - Frederico disse gentilmente - conheo-a h muito tempo. Espero que se sinta cada vez melhor entre ns.
      Achei-o bonito, seu aspecto  jovem, louro de olhos azuis-esverdeados. Senti que o conhecia. Foi aquela sensao de "conheo e no sei de onde". Senti-me  
vontade ao seu lado, conversamos por horas. Convidou-me para ir ao teatro. Vendo-me indecisa, recomendou:
      -Patrcia, pergunte  sua av se pode ir.
      Nem precisou. Vov aplaudiu a idia. Combinamos o horrio, Frederico viria me buscar, ainda no sabia bem como ir a certos lugares aqui.
      Quando ele saiu, vov me disse:
      -Patrcia, aqui esto os que se afinam com este lugar. No precisa temer ningum e nem desconfiar como por prudncia fazia quando encarnada. Por isso que este 
lugar, as Colnias so tranquilas e ordenadas.
      -Isto  bom demais! No precisa desconfiar, no ter medo de outro ser humano.
      Fiquei ansiosa, esperando o horrio para ir ao teatro. Sentia alegria em conhecer tudo. Teatro aqui  s cultura, como tudo na Colnia  feito, realizado para 
o bem de todos.
      Frederico pagou para mim. O lado externo do prdio do teatro  muito bonito. Grande, bem planejado, com colunas grandes na frente e o telhado em V. Tem trs 
grandes portas na frente, portas de um material parecido com a madeira trabalhada em relevo.  pintado de branco, em toda sua volta h plantas e flores muito bonitas. 
Entre as colunas e as portas h uma rea de uns quatro metros e, para chegar a esta rea, cinco degraus. No interior,  mais bonito ainda. A sala de espetculo  
enorme, poltronas confortveis, paredes claras com lindos quadros enfeitando. O palco  parecido com as salas de espetculo dos encarnados. Gostei demais. Tempos 
depois, ao conhecer outras Colnias, vi outros teatros, com salas bem diferentes. No plano Espiritual, as Colnias tm suas variedades. Assistimos a uma apresentao 
de uma pea adaptada de um romance Esprita, Renncia, de Emmanuel, que encarnada li, psicografado por Francisco Cndido Xavier.
      -Patrcia, muitos encarnados tm permisso de em certas ocasies vir, desligados pelo sono, ver peas teatrais que grupos desencarnados fazem no Plano Espiritual. 
Artistas encarnados j fazem peas com tema Esprita. Esta pea que vimos, uma mais ou menos parecida, logo estar alegrando encarnados. E, como esta,  muitas outras 
peas com tema Esprita surgiro para instruir divertindo os encarnados. E faro muito sucesso. (Realmente, estas peas teatrais so sucesso entre os encarnados.)
      Voltei muitas vezes ao teatro, no comeo amigos me levaram e ofertavam com seus bnus-horas meu ingresso. Depois, quando comecei a trabalhar, era com orgulho 
que adquiria o meu ingresso. Gosto muito quando grupos de jovens apresentam suas peas teatrais. As crianas tambm gostam desta atividade e se apresentam muitssimo 
bem.
      O teatro s d livre acesso em certas ocasies ou para algumas palestras. Do contrrio, temos que ter bnus-horas para desfrutar deste prazer.
      No teatro, h muitos concertos musicais, cantos de corais e individuais. Algumas das msicas apresentadas so conhecidas dos encarnados, as que so bonitas, 
que falam de assunto agradvel e bom. Outras msicas so desconhecidas dos encarnados, mas conhecidas dos moradores da Colnia.
      O teatro, ou, como vov disse que aqui o chamam, Sala de Apresentao, ou de Conferncias,  usado tambm para algumas palestras sobre temas que interessam 
a pequenos grupos. Quando a palestra  de interesse de todos  realizada nas praas.
      Para sabermos quais as atividades que sero apresentadas no teatro, h um quadro na frente com a programao da semana e do ms. Tambm podemos encontrar em 
vrios pontos da Colnia listas com estas atividades.
      O teatro  muito frequentado e todos os seus frequentadores cuidam dele como se fosse seu lar.
      Gosto tanto da Colnia que fico admirada ao saber que existe quem no goste daqui. Comentei este fato com Frederico.
      -Frederico, como pode haver pessoas que no gostem daqui?
      -Gosto e afinidades diferem muito, tanto a encarnados omo a desencarnados. Pessoas no mudam o gosto s porque desencarnaram. bserve qu encarnados, uns gostam 
de bar, prostbulos, outros de templos religiosos, lugares de estudos. Outros de perigo, lugares barulhentos, outros de Paz, da natureza. Muitos encarnados ficam 
indiferentes a uma bela obra de arte, a uma delicada msica, a um canteiro de flores enquanto outros amam o que  simples, o que faz bem ao esprito. Muitas pessoas 
pensam que o desencarne lhe ser maravilhoso porque, na opinio delas, no fizeram o mal, mas tambm no fizeram o Bem. E nem se afinam ou vibram com o que tem a 
Colnia para oferecer. Tenho conhecimento de pessoas boas que desencarnam e vm  Colnia, visitam tudo, acham lindo, mas no querem ficar, preferem estar encarnados. 
Escutei de um senhor que estava maravilhado com a Colnia, era como tivesse feito uma viagem a um lugar encantador, viu e queria voltar. Aqui no era, na opinio 
dele, para morar.
      -E a?
      -Teve que entender que desencarnou e no podia voltar. Aconselhado a se acostumar, entristeceu, mas acabou por se adaptar. Outros no gostam mesmo, aqui no 
fumam, no bebem lcool ou comem carnes. Esto aqui para aprender a servir e muitos s querem ser servidos. Nem todos acham aqui um local divino como voc e eu. 
Mesmo muitos dos seus moradores no tm o mesmo gosto. Uns se encantam com sua arquitetura, outros com os locais de estudo, outros se maravilham com as plantas, 
etc.
      -E voc, meu amigo, do que mais gosta?
      -Em todas as Colnias que visito so os hospitais que me chamam ateno. Fui mdico na minha ltima encarnao. Amo a medicina. Estou sempre trabalhando nesta 
rea.
      -Ainda no sei do que gosto mais. Acho tudo to lindo! Tenho vontade de trabalhar, mas ainda nem sei em qu.
      -Sabe, Patrcia, enquanto no h a cosmificao ( a autorealizao do indivduo dm Deus ou no Cosmo.) do esprito, a personalidade necessita preencher o seu 
vazio com atividades. Os bons construindo, aliviando, crescendo e evoluindo, os avessos  unidade, destruindo, se envolvendo em prazeres e sensaes negativas, esbanjando 
o que pertence  natureza.
      Que pena ver irmos enganados na iluso da matria, cegos para as verdades espirituais e to longe de merecer viver desencarnados num lugar maravilhoso como 
este!

VIII
CONHECENDO A COLNIA
      
      Frederico me levou para andar de aerbus. So condues coletivas usadas no Plano Espiritual. Em quase todas as Colnias h aerbus de trs tamanhos, o grande, 
o mdio e o pequeno. Como no tenho com o que comparar este meio espetacular de transporte, poderia dizer que  um nibus com mistura de avio, sem barulho, sem 
poluir, confortvel e muito limpo. No tem asas. Tem os lugares certos onde param, descem e sobem passageiros. H os aerbus que transitam s pela Colnia e outros 
que vo de uma Colnia a outra e da Colnia  Terra. Aerbus no transitam pelo Umbral. S em raras excees, mas vo a Postos de Socorro localizados no Umbral. 
 muito confortvel, no d solavancos, desliza suavemente rente ao cho, ou metros acima dele. Nas viagens maiores, como a vinda  Terra, desliza pelo ar. Os passageiros 
sentam-se em confortveis poltronas. Os que transitam pela Colnia no tm condutor, nos lugares que param h um pequeno marco onde h um painel com um boto. Aperta-se 
o boto marcando para onde se quer ir, o primeiro aerbus que passar, com destino ao lugar marcado, pra. Os aerbus que transitam fora da Colnia tm um condutor 
que alm d conduzir ajuda no trabalho que se ir realizar.
      A Colnia vista do alto  muito bonita. Planejada, suas ruas e avenidas tm traado perfeito. Os prdios so harmoniosos e todos ocupados servindo  comunidade. 
Gostei muito do passeio.
      A Colnia So Sebastio fica no espao Espiritual acima da Cidade em que vivi encarnada.
      Estranhando a Colnia ter um nome de santo, perguntei ao Frederico:
      -Frederico, por que a Colnia se chama So Sebastio?
      -Patrcia, so inmeras colnias pelo Brasil e pela Terra. So como cidades, tm que ter um nome para facilitar. Nomes no importa, so designaes. Ao ser 
projetada h tempo, seus benfeitores a chamaram provisoriamente de So Sebastio para no dizer Paraso, que poderia ser confundida com paraso-cu. Pronta, continuou 
sendo So Sebastio. "So"  ttulo dado ao bravo guerreiro Sebastio. Esperam os benfeitores que todos os moradores da Colnia venham a ser bravos guerreiros e 
vencedores dos seus defeitos e vcios.
      Recebi de presente alguns bnus-horas e todas as distraes e lazer amigos pagavam para mim. Achei um tanto estranho, parecia pagamento por ser til, um trabalho 
remunerado. Um dia, ao voltarmos do teatro, me acompanhavam Maurcio e Antnio. Indaguei-os:
      -Que  realmente bnus-hora?
      -Patrcia, - Maurcio elucidou-me -a maioria dos homens trabalham por estmulo, para usufruir de um prazer ou sensao. A maioria no concebe ainda a humanidade 
como uma s famlia. Com a perda do corpo fsico pelo desencarne e para que no percam o estmulo de trabalhar,  necessrio que continuem recebendo estmulo do 
prmio do seu trabalho. Isto mais tarde os levar a faz-lo por uma causa maior, por amor. Espritos superiores vem as Colnias como lugares de transio e o bnus-hora 
como perodo de evoluo. Esta  a razo pela qual os estagirios das Colnias recebem o seu salrio bnus-hora.
      -E quem trabalha muito e por muito tempo como os governantes, os instrutores das Colnias, tambm recebe?
      Maurcio continuou a elucidar:
      -Os instrutores no mais necessitam de prmio por ser bons. Mas por amor  famlia humana permanecem nas Colnias no meio dos aspirantes, para no menosprez-los, 
para no se destacar, para no parecer serem melhores que os companheiros, usam os bnus para se igualar ao nvel dos moradores que ainda esto dentro do prmio 
e castigo. Todos utilizam os bnus-hora, para no haver grupos de protegidos e desprezados. Os que muito trabalham e que poderiam receber muito solicitam somente 
os que lhe so necessrios.
      Entendi que meus acompanhantes no serviam, no trabalhavam para ter bnus-hora, utilizavam-se deles somente quando necessrio. Os dois muito trabalhavam e 
por amor. Curiosa, indaguei-os novamente:
      -H nas Colnias os que no trabalham e no tm direito ao bnus, ao lazer?
      -H - respondeu Antnio, prazerosamente -, mas o estgio nas Colnias para estes espritos no  longo, e nem pode ser, porque ociosos no afinam com suas 
vibraes. Eles, fatalmente, na primeira oportunidade reencarnam em meio aos espritos ociosos onde iro sentir falta do conforto que tiveram e no valorizaram.
      Um lugar que visito com frequncia e gosto realmente so as bibliotecas. Elas diferem de tamanho, dependendo da Colnia. So maiores e mais completas nas Colnias 
de Estudo. Tambm h bibliotecas nos Postos de Socorro, s que menores.
      A Biblioteca da Colnia em que estagiei  muito bonita. Livros so separados por estantes, tudo com muita ordem. Fiquei maravilhada por no encontrar livros 
velhos. Os livros esto sempre novos porque, como todas as visualizaes ou materializaes do plano espiritual ou astral so de energia psquica, no envelhecem. 
H livros escritos somente para desencarnados, que s so encontrados no Plano Espiritual. So inmeros livros de estudo, pesquisas, livros religiosos e em destaque 
os livros Espritas. Grande parte dos livros os encarnados tambm dispem para ler, principalmente os livros Espritas.
      Procurei um livro e no encontrei, o bibliotecrio gentilmente me disse:
      -Patrcia, a Colnia de Estudo tem este livro, quer que pea para voc?
      -Quero, quando volto para apanh-lo?
      -Ora, espere uns minutos que estar aqui.
      Por um aparelho parecido com o moderno fax, fez o pedido, dez minutos depois, pelo mesmo aparelho, recebeu o livro que queria.
      -Puxa! - exclamei admirada.
      -No  uma maravilha? - falou entusiasmado o trabalhador da Biblioteca. Dispomos de muitos recursos, recebemos o livro pela desintegrao e aglutinao. No 
duvido que, daqui a alguns anos, os encarnados possam dispor desta comodidade.
      Legais so os livros que podemos colocar na televiso, o escrito aparece na tela e vamos lendo pgina por pgina, graas a um pequeno aparelho adaptado  tela. 
No posso compar-lo ao vdiocasssete,  diferente.  agradvel ler pela televiso1
      Prximas  Biblioteca esto as salas de vdeo, tambm chamadas de Salas de Estudos Computadorizados ou Salas das TVs e podem ser ainda conhecidas por outros 
nomes. (No  fcil descrever estas salas para os encarnados, narro fazendo comparaes.)
       um galpo enorme repartido em salas, conforme o assunto a ser ventilado. So lugares confortveis e agradveis. H em cada uma das salas vrios e eficientes 
computadores que podem ser ligados por controle remoto. Na frente de cada aparelho h dez poltronas muito bonitas e confortveis. As telas variam de tamanho. Se 
queremos ver ou estudar um assunto individualmente, regulamos a tela ao tamanho pequeno, fica como uma televiso de vinte polegadas. Se  para um grupo, regulamos 
para o tamanho mdio. Se  para muitas pessoas, para o tamanho grande, variando de dois a cinco metros. As salas no so to altas assim, tm somente trs metros 
e meio. Estes aparelhos podem ser locomovidos, se for necessrio para a projeo maior.
      So vrias salas com os assuntos marcados na porta de entrada. Os temas para estudo so sobre as Colnias, Perspirito, Qumica, Fsica, Terra, Planetas, etc. 
Uma sala interessante  a das religies e da Bblia.
      Ao irmos a uma destas salas, escolhemos um assunto para pesquisar. Exemplo: o olho humano; podemos escolher a programao: fcil, explicativa ou completa. 
Ao escolher a fcil, aparecem na tela resumidas as explicaes bsicas sobre o olho.  narrado com algumas partes escritas, o olho  desenhado em todos os seus ngulos. 
Se a pesquisa  individual, coloca-se o fone de ouvido para no atrapalhar os outros pesquisadores. Se escolher a explicativa, a pesquisa aparece com muito mais 
dados. A terceira fase, a completa, a difcil,  assunto para profissionais. Tudo  muito esclarecedor. E, se por algum motivo no se entendeu a pesquisa, encontramos 
sempre nestas salas estudiosos, mestres que tm o prazer de orientar e ensinar.
      H a sala para distrao que tem desenhos animados, bons filmes, alguns que encarnados vem, outros feitos por desencarnados, so de histrias bonitas que 
instruem e divertem. H a sala de jogos eletrnicos, so para lazer. Os orientadores destas salas procuram esclarecer os frequentadores da Sala de Jogos, porque 
estes jogos so para educar e distrair e no para levar a excessos. Os vcios so todos combatidos.
      Comparando, podemos dizer que estas salas so uma mistura de cinema-televiso-computadores aperfeioados.
      S no usamos do bnus-hora para entrar nestas salas quando vamos em pesquisas da escola ou de curso de estudo. Este  bem frequentado pelos estudantes.
      Quase todas as Colnias tm estas salas, no as vi em Postos de Socorro. Em Colnias de Estudo so bem grandes e so inmeros seus assuntos.
      Gostei e gosto muito de ir pesquisar nestas salas. Conhecendo encarnada o cinema, a televiso e o computador, encantei-me diante desta tecnologia. Mas o que 
mais gostei foi usar este processo para ver, conhecer as obras de Allan Kardec. Vemos imagens dele e de sua equipe encarnada e desencarnada trabalhando em cada obra. 
Allan Kardec estudando, pesquisando, sendo orientado pelos benfeitores que o ajudaram. Ver So Luiz, Santo Agostinho e tantos outros me fascinou. Que esprito fantstico 
 Allan Kardec! Por muitas vezes fui a estas salas para ver tudo que h sobre ele e suas obras admirveis. Este  um dos temas mais vistos, principalmente pelos 
que tiveram a ventura de ser Esprita quando encarnados ou de conhecer sua grandiosa literatura.
      Maravilho-me com tudo isto. Afinal quem no gosta ou gostaria de dispor destas facilidades?

IX
VOLITAR
      
      Tinha sempre notcias de casa, dos familiares. Continuava recebendo muitas oraes, estmulos, votos de alegria e para que me adaptasse logo  vida Espiritual. 
Amigos escreviam, dando notcias minhas aos meus, pela psicografia, atravs da tia Vera.
      Alegrei-me quando Maurcio disse:
      -Menina Patrcia, escreva um bilhete  sua me que transmitirei a sua tia.
      Emocionada fiz o bilhete agradecendo-os pelo carinho, dizendo que estava bem e mandando abraos.
      Comecei, ento, sempre a escrever e um dos meus amigos transmitia  tia Vera. Estava tranquila, o desencarne para mim no fez grandes diferenas, por nenhum 
momento senti-me separada dos meus. Entendi que no perdi a individualidade, continuava a mesma, meu amor pela famlia era o de sempre. No podemos separar nossa 
vida, ela  um todo, estar encarnada ou desencarnada so fases. Recebia muito, compreendi tambm que somos heranas de ns mesmos. A reao  conforme a ao.
      -Patrcia, - vov me chamou - venha  sala, vou lhe dar as primeiras lies de volitao.
      Fui depressa. Na sala estavam trs das moradoras da casa que me incentivaram.
      - fcil! - falavam elas. -Voc sabe, saa do corpo encarnada, enquanto dormia.  s firmar o pensamento e a vontade.
      -Volitar - disse vov como se tivesse decorado -  esvoaar, volatear, locomover-se pelo ar pelo ato da vontade.
      Vov me pegou por um brao e D. Amlia por outro e ensinaram-me a dar o impulso. Tentamos vrias vezes at que dei sozinha o impulso e levantei a um metro 
do cho.  mais fcil dar o impulso na vertical para depois ficar na horizontal. Fiquei parada. De novo recebi ajudas das duas que devagar me empurraram. Incentivaram-me 
alegres. E, realmente, no foi difcil, logo estava no meio da sala volitando devagar de um lado a outro.
      -At aprender realmente, no se distrais - vov recomendou. -Volitar  como aprender a andar quando se est encarnada, a pedalar uma bicicleta, ou nadar. Depois 
que aprende a dominar, faz automaticamente.
      Sabia o que era volitar, lera sobre o assunto em diversos livros Espritas. A sensao que tinha era de voar. Realmente  muito agradvel e bom volitar. Sabia 
tambm que espritos desencarnados atravessam paredes, portas, etc.
      Dei um forte impulso e rumei para a parede, escutei vov:
      -No, Patrcia, no!
      Bum... Bati a cabea na parede e ca sentada no cho. Minhas amigas correram e rodearam-me, ningum riu. Olhei para elas e acabei rindo. Fora um tombo e tanto. 
Levantei e quis saber.
      -Ei, vov, por que no pude atravessar a parede?
      -Patrcia, voc s poder atravessar quando souber. Voc leu que desencarnados atravessam paredes, portas, mas de construes de matria, ou seja, casas de 
encarnados. Assim mesmo, os que sabem. Os que tm conscincia do seu estado desencarnado e aprenderam.
      -S os bons sabem? - indaguei.
      -No, os maus sabem e se utilizam muito deste conhecimento. Saber depende da nossa vontade, do livre-arbtrio e todos podem. Os bons sabem mais porque tm 
mais quem os ensina e mais interesse em aprender. A construo da Colnia no  como a construo dos encarnados. A Colnia  uma projeo mental. Para que entenda, 
 feita da matria sutil como a do nosso perisprito, como este corpo que agora estamos revestidas. Certamente, h os que sabem atravessar esta matria sutil, tanto 
os irmos superiores como os inferiores. Embora nossos irmos superiores, designo-os assim para que possa entender, quanto mais harmonizados com o Cosmos, maior 
poder mental tm. Para transpor uma barreira mental  preciso no duvidar do poder de faz-lo. J vi um instrutor fazer. Ele projetou uma passagem e atravessou. 
Mas isto  usado somente para alguma eventualidade. Voc no escutava, quando encarnada, que em Centros Espritas para determinada ajuda irmos desencarnados ficam 
confinados a um loca, at poderem ser orientados? Em muitos Centros Espritas junto com a construo material  tambm projetada esta energia mental pelos benfeitores. 
Assim, tanto encarnados como desencarnados s podem entrar e sair pela porta. Estas projees tambm so feitas em certos lugares e por determinado tempo para evitar 
ataques das trevas. Atravessam s os que sabem e conseguem. Talvez, se voc quiser, ir aprender no futuro.
      Realmente, no tinha visto ningum entrar na nossa casa e nem em qualquer outro local na Colnia volitando. Todos entravam e saam tranquilamente pela porta, 
abrindo-a e fechando-a.
      Achei graa do meu tombo e ainda acho graa quando recordo.
      Anos depois, estava ensinando meu primo a volitar e lembrei do fato. Resolvi brincar com ele.
      -Vamos, Rodolfinho, venha!  isto a! Vai!
      Rumei para a parede e soltei. Segurei o riso. Pensei que, como eu, iria bater a cabea. Mas Rodolfinho no sabia que desencarnados atravessam paredes, no 
viera como eu com conhecimentos do Plano Espiritual.
      Ele chegou perto da parede, apalpou-a com a mo, virou a cabea e indagou:
      -Patrcia, que fao agora?
      -Vira e volta - disse um pouco decepcionada.
      Aprendi em poucas lies a volitar pela casa, pelo nosso jardim. Pensava em volitar, firmava o pensamento, subia metros do cho e ia para onde queria.
      Vov me levou ao campo, ou ptio da escola, onde instrutores ensinam a volitar. Fui toda contente.
      A escola  muito grande, tem vrias reas e muitos prdios.  muito bonita e agradvel,  rodeada de rvores e muitos canteiros floridos.
      O ptio  grande, parte gramado, parte ladeado com lindos ladrilhos cinza-claro, em sua volta h bancos e flores. Na Colnia So Sebastio este campo  repartido 
em duas reas. Numa parte os principiantes aprendem a volitar, na outra a alimentar-se pela respirao.
      Escutam-se pela Colnia msicas agradveis e suaves. Nos ptios o som  mais alto, porm, no menos agradvel. A msica suave relaxa e incentiva o trabalho 
e o aprendizado.
      Fiquei encantada, admirando tudo curiosa. Na parte ou campo de volitao, havia cinco instrutores. Cada um com um pequeno grupo de aprendizes. O primeiro grupo, 
do qual estvamos perto, tinha uns desencarnados que no davam impulso. O instrutor carinhosamente tentava ajud-los, mas eles pareciam temer. Indaguei a vov:
      -Por que eles nem querem dar impulso? Ser que no gostam de volitar?
      -Talvez duvidem que conseguiro. Nem todos, Patrcia, aprendem fcil ou gostam de aprender. Sei de muitos desencarnados daqui da Colnia que no sabem porque 
no querem aprender.
      -Ser que estes conseguiro?
      -O fato de eles estarem aqui  porque querem aprender. Muitos deles, no tendo nem idia quando encarnados desta possibilidade, desencarnados estranham muito 
e, pior, duvidam. Mas quem quer, aprende.
      Vov me inscreveu no curso. Tudo bem organizado, tem dia e hora marcado.
      Fui apresentada ao primeiro instrutor que me interpelou.
      -Patrcia, conhece alguma coisa sobre volitao?
      -Conheo.
      -timo.
      Pegou nas minhas mos e deu impulso, sa tranquila a volitar.
      -Oh! Voc deve passar para a turma trs.
      -O curso tem cinco fases, cada fase com um instrutor. Como j tinha aprendido o bsico fui para a terceira fase. Recebi uma apostila para estudar sobre volitao. 
 bem organizado. Aprendi rpido, em poucas lies conclu o curso e estava apta a volitar. A volitao pode ser feita de vrios modos: devagar, rpido, rapidssimo, 
na vertical e na horizontal. Devagar  como se andasse, s que acima do cho. Na Colnia volita-se pouco,  mais comum andar pelas suas ruas, avenidas e praas. 
Normalmente, volitamos devagar. Rpido, quando h mais pressa; e rapidssimo, o ltimo que aprendemos, volita-se como se fosse desmaterializar para se materializar 
em outro lugar. Volita-se deste modo a longas distncias. Vai-se, por exemplo, de um ponto a outro da Terra, em segundos. Na vertical,  usada para a locomoo rpida. 
Na horizontal, quando se quer apreciar a paisagem.
      As crianas e jovens aprendem a volitar nos ptios do Educandrio.
      O corpo perispiritual  mais denso, quanto mais a personalidade se confunde com o corpo animal, se desligando da aparncia animal, ele est onde quer, pois 
se cosmifica.
      Volitar  privilgio de desencarnados. (Certamente que encarnados volitam quando esto com seus corpos fsicos dormindo em desdobramento. Mas a sensao agradabilssima 
 s para desencarnados que sabem.) Ah, que grande e maravilhoso privilgio!

X
APRENDENDO A SE NUTRIR
      
       Vov voltou a trabalhar como fazia antes e, nas suas horas livres, passeava comigo. Ela gosta muito do seu trabalho. Passeava muito e fui vrias vezes  Praa 
Redonda. Conversava muito e fiz vrias amizades. Foi na Praa Redonda que conheci Ana. Ela tambm estava a passear. Comeamos a conversar e percebemos que tnhamos 
muitas afinidades e uma sincera amizade nos uniu.
      -De que desencarnou? Ou como desencarnou?
      Esta pergunta se faz muito por aqui. Comea-se a conversar e logo surge o assunto desencarnao, querendo saber como foi que o corpo carnal morreu. Maurcio 
me elucidou que estas perguntas so mais dos novatos que ainda esto preocupados com a sua desencarnao e querem saber como foi a do outro.
      Contei minha desencarnao a Ana e ela, a sua para mim.
      -J faz tempo, tenho decnios de desencarnada. Meu corpo definhou pela tuberculose.
      Desencarnou jovem, aos dezessete anos. Ela  inteligente, muito instruda e ama aprender. Passamos horas a conversar. Convidou-me para ir visit-la no seu 
trabalho e no seu lar. Ana mora no Educandrio.
      Fomos visit-la, Frederico e eu. Frederico, sempre que possvel, acompanhava-me aos passeios pela Colnia, sempre esclarecendo-me sobre os lugares e suas funes.
      -Patrcia, - disse meu amigo - para trabalhar no Educandrio, necessita-se de muito aprendizado e dedicao. Normalmente estes instrutores tm muito tempo 
de desencarnado e conhecem bem a alma humana. Para ser til com sabedoria,  preciso saber.
      Ana veio nos receber feliz como sempre. Tem seu cantinho, seu quarto, ou mesmo seu espao, como alguns jovens costumam dizer, ao referir-se onde moram, ou 
sua moradia como ela diz, na rea residencial, reservada aos trabalhadores do Educandrio.   bem bonita a moradia destes trabalhadores. Eles podem morar neste Educandrio, 
ou em casas, ou nos alojamentos. Refiro-me ao Educandrio desta Colnia, porque depois vi, em outras Colnias, outras formas de residncias. As casas so parecidas 
com a da vov, moram instrutores e alunos, no ultrapassando dez pessoas. Os alojamentos so muitos e comuns nas escolas. So galpes compridos, com vrias portas, 
que levam ao quarto ou cmodo.  uma beleza! Ana mora no alojamento. Seu lar  uma sala decorada com gosto. No tem cama, Ana no necessita mais dormir.  um recanto 
seu para receber alguns amigos, ler, ficar a ss.  onde tem alguns pertences. Quadros lindos, vasos de flores, uma foto de famlia e um piano. A cor azul-clarinho 
predomina na sua decorao de muito bom gosto. Conversamos animados e Ana nos presenteou com lindas canes que executou ao piano.
      Depois nos levou para conhecer seu trabalho. Ana cuida de sete crianas na idade entre trs e quatro anos. As crianas estavam no parque. Quando elas a viram, 
correram para abra-la. Elas lhe querem muito e Ana as ama.
      Ana deve ter sido feia encarnada. Melhor dizendo, no teve um fsico bonito. Mas desencarnada  a beleza interior que invade. Seu sorriso  doce, seu olhar 
 meigo. Para seu pequenos, no existe beleza maior. Para mim, Ana  maravilhosa.
      Frederico, depois, me explicou que somos o que aspiramos ser. Aparncia externa bonita pode tambm ser plasmada por espritos ligados  beleza fsica.
      Como  bom fazer amigos, ter amigos.
      No Educandrio, ouve-se muita msica,  um local bem alegre. A todos os visitantes  recomendada alegria. H muitos animais com os quais as crianas brincam, 
so bichinhos dceis, como pssaros, gatos, ces, esquilos, etc. Muitas flores e parques com brinquedos de vrias espcies para as crianas. Campos de jogos para 
os jovens. Ana nos serviu de cicerone, mostrando todo o Educandrio, principalmente a ala dos pequenos. O Educandrio  uma beleza! Bem planejado, visando o bem-estar 
dos pequenos e jovens desencarnados, oferecendo-lhes alegria e aprendizagem. No vi tristeza, crianas normalmente se adaptam fcil por aqui. Foi um belo passeio. 
Encantei-me com o trabalho e a dedicao de Ana que, tirando poucas horas para o lazer, trabalha o tempo todo a cuidar de cada criana como um filho, um irmo querido.
      -Ana - indaguei -os pequenos no sentem falta de seus lares, de seus familiares?
      -Certamente que sim e, dependendo da idade, uns sentem mais que outros. Os pequeninos nem estranham, os que entendem sentem sim. Por isso, Patrcia, a recomendao 
aqui  alegria. Todos ns que servimos aqui fazemos o impossvel para ajudar nossos abrigados. Quando a famlia encarnada compreende, aceita a desencarnao tudo 
fica mais fcil. Mas se se desesperam, chamam por eles, sentem, choram, necessitam de mais carinho de nossa parte.
      -Eles no querem aqui o que gostavam quando encarnados? Exemplo: balas e sorvetes?
      -Claro, no mudam de gosto s porque desencarnaram. O Educandrio  agradvel, mas a ordem impera. Todos na Colnia so convidados a se educar. A disciplina 
com amor educa. Procuramos atend-los dentro do limite justo. Muitos querem um brinquedo preferido, isto  fcil, os instrutores plasmam e eles tm seu brinquedo. 
Balas e sorvetes so distribudos, mas na medida certa, assim aprendem que devemos nos nutrir de alimentos sadios, tudo equilibrado.
      -E os jovens tambm? Muitos gostavam de refrigerantes, podem t-los?
      -Patrcia, voc tem vontade? Aqui, quis tomar um refrigerante?
      -No.
      -Assim  com a maioria deles. Vontade est no desejo. E devemos educar nossa vontade. Se algum jovem quiser, pode ter seu refrigerante, mas nunca bebidas alcolicas. 
Procuramos, principalmente aos novatos, fazer tudo que  possvel para que eles se sintam bem. Mas o Educandrio tem normas a serem cumpridas, para o bem-estar de 
todos. A maioria se encanta com a maravilha que  o Educandrio, satisfaz-se com o que ele lhe oferece.
      -As crianas e jovens aprendem a nutrir-se pela atmosfera?
      -As crianas, normalmente, esto temporariamente aqui. Aprendem conforme so capazes. So muitos entre ns que s se alimentam deste modo. Os jovens gostam 
mais deste aprendizado.
      Dando uma pausa, Ana continuou sua preciosa lio:
      -A alimentao de um adulto  mais um exerccio de prazer do que nutrio. Todos os nossos vcios so necessidades moderadas do corpo que potencializamos para 
termos sensaes e prazeres. A criana procura o alimento s quando necessita. Ainda no deturpou suas necessidades e, como no astral no h perda de energia, no 
h busca de alimentos.
      Foi um lindo passeio e uma grande lio aprendida em minha visita ao Educandrio.
      Continuava a ver os meus familiares pela televiso,  to agradvel. Queria, desejava que estivessem bem. No recebi deles nenhuma revolta, s incentivos. 
Se, s vezes, sentia leve tristeza, repelia este sentimento, no queria desanimar. Nestes raros momentos, aproximava-me de minhas violetas que estavam sempre lindas 
e floridas. Sentia-me refeita, era como se o amor de minha me me sustentasse juntamente com a fora do carinho do meu pai.
      Continuava a receber visitas, mas gostava de conversar com jovens ou os que como eu desencarnaram jovens,  mais prazeroso. Talvez porque as conversas normalmente 
so mais afins. Fiz vrias amizades entre os jovens. Vamos a lugares juntos e reunimo-nos para ouvir msica.
      Notei que Maurcio no tomava nem gua. Indaguei-o:
      -Maurcio, como se alimenta?
      -Tiro as energias que necessito do sol, do ar e da natureza.
      -Ser que um dia serei como voc?
      -Se quiser, esforce-se e ser. Eu, nem em excurses, trabalhos entre os necessitados, necessito alimentar-me ou tomar gua. Observe, Patrcia, que os moradores 
da Colnia no so iguais. H os necessitados, os que querem ser servidos, os que mesmo recuperados fazem trabalhos por obrigao. H os que servem de boa vontade, 
mas se acomodam, sentem-se bem como esto, para muitos  o paraso sonhado. E h os que aproveitam as oportunidades para aprender, servindo com preciso. Voc tem 
seu livre-arbtrio para estacionar, ficar como est, ou progredir, ser como muitos, auto-suficientes, que no necessitam dormir, alimentar-se, tm plena conscincia 
de sua existncia espiritual. No importa se estamos encarnados ou desencarnados, temos que crescer, progredir, pr em prtica o que se aprende. Necessitamos ser 
e agora, no presente. Muitos encarnados dizem no acreditar na reencarnao, por Jesus no ter dito mais claramente e mais vezes. O que nosso Mestre Maior nos ensinou 
claramente  que devemos ser melhores, tornamo-nos bons, no presente. Que pode a reencarnao ser de importante a um esprito, se est sempre deixando para o futuro 
o que tem que ser feito no presente?
      -Vou ser como voc!
      Logo aps ter aprendido a volitar, comecei a aprender a nutrir-me pela absoro dos princpios vitais da atmosfera.
      Matriculei-me no curso, comecei indo todos os dias em hora marcada, por uma hora.
      Neste curso, os instrutores procuram conscientizar seus alunos que realmente esto vivendo num corpo sutil e que so desencarnados. Comea-se aprendendo exerccios 
para respirar, alguns parecidos com os do Yoga. Digo parecidos porque aqui ningum se refere a esta cincia de respirar. Fao esta nota porque conheci encarnada 
alguns destes exerccios. Aprende-se por exerccios, depois faz-se automaticamente, s pela fora de vontade. Meu instrutor nos disse que comearamos a aprendendo 
com os exerccios, mas  necessria a compreenso da nossa afinidade csmica. O Pai a todos sustenta. Podemos absorver energia do ar, do sol, ou simplesmente do 
Cosmo.
      Conforme aprendemos, vamos passando para turma mais adiantada, at ter concludo o curso. Conscientizando-se que se quer aprender, tudo fica mais fcil.
      O ptio  muito agradvel, ao ar livre, e cercado de plantas. Trocam-se muitas idias e experincias neste curso. Os instrutores so espritos de conhecimento 
e experientes, sempre prontos a ajudar. H muitos horrios de aula por dia, mas o ptio est sempre aberto a todos que queiram ir l fazer exerccios.  bem frequentado, 
muitos gostam de se exercitar e outros de ir para renovar o aprendizado.
      Este curso me fez muito bem, aos poucos fui passando a viver como todos os desencarnados devem viver, mas aos poucos. Demorei mais tempo para conclu-lo.
      J no me preocupava com minha aparncia. Meus cabelos ficavam como eu queria. J no trocava de roupa como no comeo e j ia perdendo a vontade de tomar banho, 
de escovar os dentes e at de me alimentar. Mas alimentava-me ainda uma vez por dia. Nutria-me de frutas, caldos de ervas, doces, pes, tudo baseado em vegetais. 
No se mata animais para se alimentar. Gostava muito de tomar gua. A gua  diferente, cristalina, fluidicante e energtica. Normalmente, os habitantes das Colnias 
tomam sempre gua.
      Na casa da vov, ela e suas amigas alimentam-se muito pouco, s aps trabalhos que desprendem muita energia, quando voltam da Crosta, do Umbral ou das enfermarias 
onde esto os muitos necessitados. Alimentando-se pouco, usa-se pouco o banheiro e elas se banhavam raramente, talvez mais para ter o prazer da gua caindo sobre 
si.
      Neste perodo em que aprendia os exerccios da cincia de respirar, em que comeava a me alimentar pela absoro dos princpios vitais da atmosfera, aprendia 
tambm a dominar a minha vontade e a us-la para meu bem-estar.
      No sentia nenhuma dor, nenhum mal-estar, no tive mais resfriado. Maurcio me explicara que deveria aprender a observar meu prprio interior. Porque ao agir 
egosticamente causamos em ns muitos mal-estares.
      Dormia cada vez menos, no sentia necessidade de dormir como antes e nem de me alimentar. Gostei muito, porque, com este tipo de alimentao que comeava a 
me nutrir, quase no precisava ir ao banheiro. Depois, no me alimentando mais, o banheiro  um cmodo dispensvel.
      Nem todos aprendem a volitar e a se nutrir em cursos, h outros modos de aprender, como lendo, pesquisando nos vdeos, algum que sabe ensinar. Mas, frequentando 
estes cursos,  bem mais fcil, aprende-se com exatido e em menos tempo.
       bem agradvel conscientizar-se e viver como desencarnado.

XI
RELATO DAS TRS AMIGAS
      
      Nas horas de lazer,  costume visitar amigos e parentes por aqui. Gostamos de nos reunir e conversar. O assunto preferido entre familiares so os parentes. 
Falamos a respeito dos entes queridos desencarnados que no esto bem e sobre os parentes encarnados. Trocam-se idias e ajuda. Na casa de vov, recebem-se muitas 
visitas e, como estava sempre por ali, quando convidada, ficava junto. Escutava conversas, participara e, com isto, aprendia muito.
      D. Amlia, uma das senhoras que moram conosco, recebeu a visita de sua neta Marina e da amiga dela, Isa, que residiam em outra Colnia. Conversamos animadas. 
Como quase sempre acontece, a conversa foi sobre a desencarnao. D. Amlia foi a primeira a falar da sua desencarnao.
      -A morte do meu corpo foi muito dolorida. O cncer foi destruindo meu corpo. Revoltei-me com tudo e todos, tornei-me uma doente amarga. Muita debilitada, meu 
corpo morreu, nada vi ou senti, s percebi tempos depois. Continuei a sofrer com meu desencarne. Vaguei com dores pelo meu antigo lar. Sofri muito. Depois de muitos 
anos, fui socorrida. Entendi que foi merecido tudo o que passei. Tendo sade encarnada, no dei valor, tomava sempre bebidas alcolicas, fumava, envenenei meu corpo 
com o egosmo, inveja e cimes. Se no fiz mal a ningum, fiz pouco bem. O bem que fiz foram as poucas esmolas, resto do meu suprfluo, que distribu. Nunca pensei 
em ajudar realmente algum. Vivi encarnada cultivando a matria, como uma tola imprudente, ignorando a parte verdadeira, a espiritual. A dor, a doena, tudo isso 
foi uma tentativa que havia escolhido antes de reencarnar, para alertar-me, mas fiquei revoltada, no sofri com resignao. Quem no sofre com aceitao, pouco lhe 
adianta. Depois, em vez de reconhecer meus erros, me revoltei, achando injusto, por no ter feito, no meu ponto de vista, nada de ruim, no matara, no roubara, 
no trara, etc. Esquecendo que pude fazer o Bem e no fiz. Nem aprender quis. Para que saber? Dizia sempre, depois de morta, aprendo. Isto, se tiver continuao 
da vida. Teve, continuei a existir depois do meu corpo ter morrido. E continuei a sofrer pelos mesmos motivos. At que, cansada, comecei a ver realmente meus vcios. 
Mais humilde, clamei, pedi ajuda. Amigos e parentes levaram-me para o hospital de um Posto de Socorro, onde sarei e vim para a Colnia. Agora, tendo a oportunidade, 
sou agradecida, tento educar-me no trabalho til e no estudo da boa moral.
      -Eu - falou Marina -desencarnei jovem, aos vinte e um anos. E, como vov, ignorava completamente a continuao da vida, no tinha idia do que acontecia com 
quem morria, se acaba, se ia para o inferno ou o cu. Teorias que no entendia e nem queria entend-las. No seguia religio nenhuma. Dizia ter uma s por rtulo. 
Para mim, a morte do corpo era somente para os outros. Desencarnei por um acidente de carro. Socorristas, trabalhadores do Bem tentaram ajudar-me, repeli-os. Para 
mim, era loucos dizendo besteiras, como que meu corpo morreu. Foi um perodo difcil. Na minha casa, foi um caos. Meus pais intensificaram as brigas e acabaram por 
se separar. Um acusava o outro pelo meu desencarne. Sofri muito, julguei estar louca por no conseguir entender o que se passava e por no aceitar minha desencarnao. 
Com meu lar desfeito, vaguei pelas ruas com muito medo. Cansada de sofrer, resolvi apelar para Deus. Entrei num templo e orei, senti-me melhor e resolvi ficar ali. 
Entendi que religio faz falta, quando se  religioso sente-se protegido, quando se  realmente sincero e devoto na religio os sofrimentos so compreendidos. E 
a morte no aterroriza tanto. Entendi que desencarnara, mas no sabia o que fazer para melhorar minha situao. Fiquei naquele templo a orar junto com outros desencarnados 
e com encarnados que l iam. A orao levou-me a meditar, a me arrepender dos meus erros. Fiz muitos atos errados, fui egosta, materialista, nos meus vinte e um 
anos que passei encarnada, tinha muito do que me arrepender. No sa mais do templo, temi os irmos trevosos, tinha medo que eles me prendessem. Eles no entravam 
no templo, mas via-os fora. Fiquei anos no templo, cansei, resolvi ser sincera comigo mesma e pedir socorro. Chorando, pedi ajuda a Deus. Trabalhadores do Bem auxiliaram-me. 
Levei tempo para me recuperar num hospital de um Posto de Socorro. Hoje estou bem, sou grata, aprendo a viver aqui, anseio por melhorar moralmente e pr em prtica 
o que aprendo.
      Marina suspirou, mas no estava triste, as lembranas de tudo que passou lhe do foras para melhorar cada vez mais. Aps uma pausa, foi a vez de Isa falar.
      -Desencarnei por um tumor maligno no crebro, depois de alguns meses doente. Estava com dezesseis anos. Seguia uma religio que equivocadamente me ensinou 
que, com a morte, adormecia para acordar no julgamento de toda a humanidade, nos fins dos tempos. Senti um torpor com a morte do meu corpo, uma espcie de sono, 
no qual achava que dormia, mas ao mesmo tempo via e ouvia tudo, embora sem muita clareza, o que se passava ao meu redor. Fiquei junto dos familiares a velar meu 
corpo. O desespero dos meus foi grande, gritavam, choravam, sofriam horrivelmente. Sentia muita perturbao, mas tambm sentia-me amparada, escutava algum convidando 
para ir, partir. Os meus familiares me seguravam e no me esforcei para ir, no queria deix-los sofrendo tanto. Aps meu corpo ter sido enterrado, meus familiares 
foram embora, chamei com f: "Meu Deus, ajuda-me!" Socorristas me levaram para um Posto de Socorro tentaram explicar e me curar. A doena, o reflexo dela, ainda 
era forte em mim. No me apavorei ao saber que meu corpo morreu, decepcionei-me por no ser como pensava, como acreditava. Entendi as explicaes que gentilmente 
os benfeitores me transmitiam, raciocinando, achei justas e lgicas. No temi mais, e passei a dormir com mais tranquilidade. Mas os lamentos, o desespero dos meus, 
enlouqueciam-me. Julgava-me to coitada por ter morrido que comecei a ter d de mim, e a autopiedade no leva a nada, s maltrata, desesperei. Eles comeavam a chorar, 
eu tambm desesperava e chorava. Quando me chamavam, queria ir para perto deles e acabei indo. Que agonia! Choravam, lamentava, era como se eu tivesse acabado. Sem 
entender, pois novamente fiquei confusa, sofri muito. Diziam que estava dormindo, que nada via ou sentia, gritava que no e novamente me apavorei, temi adormecer. 
Detestei ficar no meu ex-lar, quis voltar ao Posto de Socorro, mas no sabia como. Lembrei de Jovina, uma caridosa enfermeira que cuidou de mim, chamei por ela. 
Jovina carinhosamente veio em minha ajuda, senti alvio ao v-la. "Jovina, socorre-me!" Implorei em lgrimas. "Tira-me daqui, me leva para um lugar onde no possa 
voltar mais." Jovina me levou para uma Colnia, onde fui internada no hospital do Educandrio na ala para jovens. Tive de receber um tratamento especial para superar 
e entender o desespero dos meus pais, procurando no dar importncia aos seus chamados para no sentir tanto. Os orientadores do Educandrio, para que pudesse me 
recuperar mais rpido, tentavam ajudar mais pais. Como o sofrimento leva muitas pessoas a procurar ajuda, meus familiares aceitaram conversar com uma vizinha Esprita 
que bondosamente lhes explicou que deveriam conformar-se com a vontade de Deus e que eu, sendo boa, deveria estar em bom lugar e que no deveriam me chamar, etc. 
Foram timos conselhos, que entenderam de modo confuso. Mas, para meu alvio, melhoraram, no chamaram mais por mim e no desesperaram, sofrendo menos. Pude ento 
me sentir mais aliviada, esforcei-me para sarar, porque eles, pensando em mim como doente, com dores, me transmitiam isto, dificultando o desligamento dos reflexos 
da doena. Sarei e senti-me bem. Comecei a interessar-me em conhecer o Educandrio, a Colnia, a fazer amizade e apareceu outro problema. Julgavam-me santa, anjo, 
e encheram-me de pedidos. Pediram-me de tudo, para ir bem na prova da escola, para ter sade, para no chover, ou para chover, sarar da dor de cabea, achar objetos 
perdidos, etc. Pior que incentivaram todos os familiares, amigos e vizinhos a faz-lo. Sentia estes pedidos e agoniava, queria ajud-los, mas como faz-lo? Instrutores 
do Educandrio tentaram novamente ajud-los para que eu melhorasse. Novamente a vizinha Esprita foi a porta-voz, conversou com eles, orientou-os para que no pedissem 
nada a mim. Que pedissem a Deus, a Jesus, aos Anjos. Que eu, sendo boa, deveria estar em bom lugar, mas que talvez no me fosse possvel ajud-los e que sentiria 
por isto. Ficaram sentidos com a bondosa vizinha. Generosos instrutores do Educandrio tentaram novamente esclarec-los, desligando-os do corpo enquanto dormiam 
e conversando com eles. Foram aos poucos deixando, mas, ainda hoje, recebo pedidos. Amo meus familiares, desejo-lhes bem, oro por eles, mas no gosto nem de ir visit-los. 
Sofri muito com a falta de compreenso deles. A morte  to natural, no sei por que fazer dela uma tragdia. Demorei muito tempo internada no Hospital, tive depois 
que fazer um acompanhamento com orientadores, at me sentir segura. Amo a vida desencarnada, sinto-me to bem no Educandrio. Mas no foi fcil!
      A conversa continuou agradvel por mais tempo, depois nossas visitantes despediram-se e foram embora.
      Fiquei a pensar...

XII
ELUCIDAES
      
      Maurcio me surpreendeu pensativa, sentada na varanda.
      -Em que a menina Patrcia pensa tanto?
      Contei-lhe as narrativas que ouvi das trs amigas e terminei por interpel-lo.
      -Por que no fui para o Educandrio?
      - bom que pensa, medita para aprender. Voc  muito adulta com os seus dezenove anos. E mais responsvel que muitos idosos por aqui. Achamos melhor voc ter 
vindo para c. Voc tem muitos conhecimentos, o Educandrio lhe pareceria uma escolinha para infantes.
      -Sofre-se ao desencarnar por no ter conhecimentos do Plano Espiritual?
      -Nem todos sofrem, por no terem conhecimentos Espritas ou do Plano Espiritual. Conhecimentos s facilitam a adaptao. Mas a falta destes conhecimentos, 
da crena da verdadeira continuao da vida aps a morte do corpo, acarreta muita perturbao e at sofrimento ao desencarnado e at mesmo para os encarnados que 
perderam o ente querido.
      -Que me diz do sofrimento destas trs amigas?
      -O egosmo  um peso, os que cultivam a matria a ela ficam presos. Amlia sofreu, no foi m, mas deixou de fazer o Bem. O Bem a ela prpria, como se instruir, 
entender a vida como um todo. Teve vcios e nem se esforou para melhorar. A desencarnao foi um pesadelo, uma agonia. O que aconteceu a ela sucede com muitos: 
so os que se esquecem completamente da parte espiritual. Marina sofreu pelos mesmos motivos. Equivocam-se ao pensar que todos os Jovens so socorridos, somente 
pelo fato de ser jovem. No estando nada preparada para enfrentar a mudana com a desencarnao, repeliu-a. Seus erros lhe pesaram na conscincia. Infelizmente vemos 
muitos jovens delinquentes. Ser criana e jovem na matria so fases. Sabemos que o esprito pode ser milenar. Os socorristas dedicam a mxima ateno para todas 
as crianas e jovens, mas infelizmente nem todos podem ser amparados. Muitos necessitam entender atravs do sofrimento, para dar valor ao amparo recebido.
      Maurcio suspirou dando uma pausa e continuou:
      -Isa, sendo boa, poderia ter sido socorrida e sentir-se bem logo que desencarnou, mas, como acreditava que ia ficar no corpo dormindo, quis, desejou ficar. 
Nossa vontade  sempre respeitada. A histria de Isa  comum, o sofrimento em desespero atormenta a todos. So muitos os jovens que passam o que ela passou. Quando 
os encarnados tm d e s pensam nos desencarnados doentes, sofrendo, estes sentem. Estes tm mais dificuldades para livrar-se dos reflexos da doena, do sofrimento 
pelo qual desencarnaram. Devem os encarnados pensar nos desencarnados sadios, felizes, e desejar-lhes alegria. Quando os encarnados no colaboram, os desencarnados 
necessitam de muito auxlio para superar esta fase difcil. Escutam cham-los, como se as vozes dos familiares sassem de dentro deles, querem atend-los, querem 
ir para perto deles. Eles choram l e eles aqui. Muitas vezes, ficam internados somente por este motivo. s vezes, aceitam a desencarnao, est tudo bem com eles, 
mas entram em crise todas as vezes que, em desespero, os encarnados chamam por eles. Depois ficam a lhes pedir favores. No se deve pedir graas, favores aos familiares 
desencarnados, no se sabe se eles podem ou no faz-los. Como no caso de Isa, ela, no podendo, sentia-se infeliz. Mesmo se pudesse, no podemos pedir que faam 
a lio que nos cabe e nem que venham tomar nosso lugar nos bancos de provas. Isa nem podia ajudar a si mesma, e se estivesse apta a ajudar, se j tivesse conhecimentos, 
no poderia atender todos os pedidos, no  bom fazer o que compete aos outros. A interveno dos instrutores do Educandrio no caso de Isa  muito justa. Para ajud-la 
tentaram chamar seus familiares  realidade. Os orientadores do Plano Espiritual fazem muito esta ajuda, pensando nos seus pupilos. Observe, Patrcia, que Isa sendo 
boa sofreu pela falta de compreenso, do entendimento da desencarnao, algo to comum para todos.
      -Comigo foi to diferente!
      -Voc no  privilegiada, aqui est por afinidade,  pura de corao. E no  por ter sido Esprita. (Os Espritas, normalmente, esto entre aqueles aos quais 
muito foi dado e a quem muito ser pedido. Os que deram valor ao que receberam tero em abundncia.) Se no fosse boa e sem erros sua desencarnao no teria sido 
como foi. Se voc, Patrcia, no fosse boa, poderia ter sido at uma dirigente de Centro Esprita, que no viria como veio. Est aqui porque voc fez por merecer. 
Voc no sentiu o que Isa sentiu, porque o ambiente de seus familiares  de compreenso. Todos buscam, no seu lar, o aperfeioamento que lhes d condies de no 
se perturbar e assim ajudar voc. Veja sua me: em vez de cham-la para junto de si, oferta-lhe flores. No as colhe, ou leva ao cemitrio, pensa e manda-as. Seu 
pai, na sua desencarnao, lhe deu estmulo e sustentao psicolgica.
      Maurcio silenciou. Sim, era verdade, meu pai me sustentava. Recebia diariamente seus recados e oraes: "Patrcia, alegre-se, a vida  linda, seja feliz! 
Estamos bem, no se preocupe conosco. Faa o que os amigos lhe tm orientado, etc., etc." Sempre obedeci meus pais. Achava e acho meu pai o "mximo", prudente e 
sbio e seguia agora suas orientaes.
      -Maurcio, quero trabalhar.
      -E o far. Logo que iniciar o curso de conhecimentos do Plano Espiritual, voc ir faz-lo. Este curso  realizado de dois modos, num perodo maior para os 
que no tm conhecimentos do Plano Espiritual, e em perodo menor para os que tm conhecimentos. Voc far o de perodo mais curto. Ir gostar muito. Mas, enquanto 
espera, deseja fazer algo? Bem, vamos ver. Que quer fazer? Quando desencarnou fazia dois cursos na Faculdade, Cincias e Matemtica, como tambm lecionava para infantes. 
Quer lecionar, dar aulas?
      -Lecionar aqui!?
      -Voc acha que s pelo simples fato de desencarnar se sabe de tudo? Quem era analfabeto encarnado, desencarna e continua sendo.
      -Se em outras encarnaes passadas sabia, no recorda quando desencarna?
      -Nem sempre. Se em outras encarnaes teve conhecimentos e na ltima foi analfabeto, poder recordar. Mas esta lembrana poder ser acompanhada de outras que 
talvez no lhe sejam convenientes no momento. Depois, para ter estas recordaes o esprito precisa estar apto, preparado para isto. E quem est apto recorda quase 
sempre sozinho. Os desencarnados s recordam o passado para um entendimento, para aprendizado ou para realizar uma tarefa. Os que precisam recordar vo a departamentos 
prprios, l os trabalhadores do local analisam e, se for realmente um Bem, ajudam-nos a recordar. Aqui, na Colnia, estes irmos analfabetos tm oportunidades, 
facilidades para aprender. H uma ala, na Escola, onde analfabetos que desencarnam adultos aprendem a ler e escrever. Voc poder ensin-los, alfabetizando-os, enquanto 
espera o incio do curso. Ensinar s os adultos, porque professores de crianas e jovens fazem parte do Educandrio, necessitam de muitos conhecimentos. Porque, 
professores, para eles, so exemplos, so aqueles que resolvem todos os seus problemas. Para adultos, o conhecimento  dividido em matrias e voc os ensinar muito 
bem a ler e escrever. Quer?
      -Sim. Quero.
      Maurcio despediu-se e fiquei a pensar, recordei que papai sempre nos dizia sobre o saber: "O saber, que a maioria dos homens e espritos tem como fim, deveria 
ser como meio, para que o homem possa evoluir at sua cosmificao. Ns, para vivermos na matria, no precisamos saber ler, mas o saber facilita. Assim tambm o 
saber no realiza o homem espiritualmente, mas, sim, lhe d condies de compreender e encontrar a bem-aventurana."
      Sim, queria estudar, aprender para ser til com sabedoria e fiquei muito feliz em poder repartir desde j os poucos conhecimentos que possua com outros irmos.
      Aguardei ansiosa a nova visita de Maurcio que me levaria  escola para adultos.

XIII
A ESCOLA
      
      Dois dias depois, Maurcio veio me buscar para me levar  escola.
      Ela est situada numa rea enorme. Encarnada, ouvi, no Espiritismo, falar das Escolas no Plano Espiritual, referindo-se muito ao aprendizado que se faz quando 
desencarnado. Mas pouco sabia o que vinha a ser este aprendizado. Quem gosta de aprender, interessa-se sempre por estas escolas. H escolas por todas as Colnias, 
so sempre grandes e acolhedoras. A que descrevo, a da Colnia So Sebastio,  linda. Est numa rea com vrios prdios,  repartida em alas, designadas por letras. 
O objetivo  bem claro, deveria ser o mesmo sempre em todos os planos: instruir. Na escola h cursos de conhecimentos, mas o principal ensino  o Evangelho, a Moral 
Crist. H muitos cursos para ensinar a viver desencarnado, como os que fiz de Volitao e Alimentao. Os cursos tm tempo marcado de durao. So poucos os orientadores 
e professores que moram na escola. Na Colnia So Sebastio, as moradias na escola so s para alojamentos. Muitos alunos moram l durante o curso.
      Entre um prdio e outro, h ptios e jardins. A escola toda  cercada com muitas rvores, flores e recantos agradveis com bancos, onde alunos revem a matria, 
estudam, trocam idias e conversam animados.
      Maurcio e eu rumamos para a Ala D. Enquanto andvamos, foi me esclarecendo:
      -Aqui esto todas as salas de aula da Colnia. O estudo aqui abrange at certo grau. Aqueles que aps curs-lo querem continuar a estudar podem ir a outras 
Colnias maiores ou s Colnias de Estudos.
      -So muitos os que querem estudar?
      -Infelizmente no. Aqui tudo  facilitado. No se pode dar as desculpas que encarnados do para no estudar. Mesmo assim, estuda uma parte somente dos moradores. 
A continuao dos estudos abrange somente um apequena porcentagem. Estuda-se para ter conhecimentos.
      -Como so estas escolas em Colnias de Estudos?
      -Chamamo-las de Colnias de Estudos, embora cada uma delas tenha um nome.  um tipo de escola que para os encarnados seria uma Universidade, abrangendo conhecimentos 
maiores em vrias Cincias. Estas Colnias so s escolas, ou melhor, h nelas somente locais de estudos, de pesquisas, e as moradias de professores e alunos.
      -Maurcio, se um aluno indagar algo que no sei, que fao?
      -Diga simplesmente que no sabe, que ir indagar para responder. Voc dar somente aulas de Portugus e Matemtica. Eles perguntam mais nas aulas de Iniciao 
Evanglica e Moral Crist, aulas dadas por professores experientes, que resolvem ou do orientaes a todos os problemas dos alunos. Agora vou apresent-la a D. 
Dirce, a coordenadora da Ala D.
      A Ala D d para um ptio. Tudo  simples como toda a escola, pintada de cor clara e muito limpa. Maurcio bateu numa porta em que estava escrito: Orientadora. 
D. Dirce nos recebeu alegremente.
      -Oi, Patrcia, que bom t-la conosco. Maurcio, se quiser pode ir. At logo! Voc, Patrcia, ficar comigo, mostrarei o mtodo que usamos para alfabetizar.
      Entramos na sala da orientadora, que  mobiliada com muito bom gosto, mas simplesmente. Entusiasmada ela me mostrou o mtodo que usam. Encantei-me com o modo 
prtico e simples de ensinar. Os planos de aulas j esto prontos, muito bem elaborados. Observei D. Dirce, fala da escola e dos alunos com entusiasmo e alegria. 
Percebeu o que eu pensava, no me surpreendi. Aqui, a maioria sabe ler pensamentos. Disse delicadamente.
      -Patrcia, amo ensinar, amo o que fao, amo esta escola! Venha, mostrarei esta ala a voc.
      Todas as classes davam para o ptio. As salas so pequenas, no mximo para quinze pessoas cada uma, isto para facilitar o aprendizado. Salas pequenas esto 
nesta ala, h salas de aula de diversos tamanhos na escola. D. Dirce bateu em uma das classes.
      -Esta  a sala em que vai trabalhar.
      A porta abriu e o professor nos recebeu sorrindo. D. Dirce nos apresentou como tambm aos alunos.
      -Esta  Patrcia, que ir substituir Clvis; este  o professor que licenciar.
      Gostei deles e senti que eles gostaram de mim. Logo aps conhecer todos, samos. D. Dirce continuou esclarecendo-me.
      Voc ir substituir Clvis que, por motivo de famlia, pediu licena.
      Estranhei com este "pediu licena". D. Dirce explicou.
      -Patrcia, aqui tentamos aprender a servir por Amor. Todo trabalho  um aprendizado e no sacrifcio. Certamente ao adquirir responsabilidade no deixamos 
nossos afazeres sem pedir aos nossos superiores. E, quando fazemos,  por motivo justo. Clvis, a quem ir substituir, est conosco h trs anos, seu filho desencarnou 
e vaga em sofrimento. Pediu licena para ver se consegue ajudar o filho e os familiares encarnados. Um pedido assim  comum aqui, sua av, para ficar com voc, pediu 
licena por um perodo do seu trabalho.
      -Tudo bem organizado! - no pude deixar de exclamar.
      Voltei para casa com meus planos, comearia a lecionar no dia seguinte. Em casa li-os e planejei o melhor modo de dar aula.
      Contente, no dia seguinte l estava bem antes do horrio marcado. Conheci os outros professores da Ala D, muito simpticos, todos foram gentis comigo. Lenita, 
uma das professoras, se ofereceu para me ajudar e orientar no que precisasse. Gostei dela e nos tornamos amigas.
      Minha classe tinha doze alunos, senhores e senhoras, pessoas simples, quietas e tmidas. Ali no usamos o termo senhor e senhora nem eles me chamavam de dona, 
tratavam-me por voc. S nos referamos ao tratamento respeitoso a D. Dirce. Iniciei a aula. Normalmente tinha que repetir as explicaes, corrigir caderno por caderno. 
Eles no desanimavam, queriam aprender. Eu com pacincia ensinava prazerosamente. Acostumamo-nos logo uns com os outros.
      Lenita morava perto da casa de vov, voltvamos da escola juntas, porque ela lecionava dois perodos e amos em horrio diferente. Conversvamos muito, desencarnou 
jovem como eu, vinte anos,  inteligente, poetisa, temos os mesmos objetivos e interesses.
      Lenita  clara, usa uma longa trana nos cabelos e a joga do lado, que vem at a cintura,  muito bonita. Falando em beleza, os moradores da colnia so na 
maioria bonitos. Acho que  por dois motivos. Primeiro, a gente passa a v-los como irmos queridos. Segundo, porque os moradores so de paz, esto se equilibrando, 
tentando harmonizar-se. As pessoas assim, lindas interiormente, so agradveis, portanto bonitas.
      -Patrcia, fiz o curso que ir fazer,  maravilhoso, ir gostar.
      Est sempre incentivando e elogiando a todos. Ela no gosta de falar de si, insisti para que contasse sua histria.
      -Desencarnei h muitos anos, fui assassinada. Foi bem triste e cruel. Sofri muito. Estava noiva, amava e era amada. Ao voltar do trabalho,  tardinha, sozinha, 
um homem me rendeu, me amarrou, tampou minha boca e me levou para um local isolado. Me estuprou e feriu com uma faca, largando-me num buraco. Desencarnei com muita 
dor e agonia. Socorristas me desligaram e levaram para um Posto de Socorro. Julguei que ainda estava viva, encarnada, no acredite, no queria nem pensar que desencarnara; 
iludi-me de tal modo que at esqueci o que acontecera, s queria sarar e voltar para perto dos meus. Como no me levaram, fugi, fui para a casa terrena. Decepcionei-me 
muito e fiquei magoada. Nada era como antes, meu noivo nem sentiu minha falta como eu pensei. J namorava outra. Comecei a enlouquecer. Meus ferimentos voltaram, 
triste, fiquei a vagar. S ento entendi que desencarnara, pedi a Deus ajuda com sinceridade. Novamente fui socorrida. Desta vez, sem iluso, magoada e triste, tive 
que fazer um longo tratamento para me recuperar. Estava revoltada com a maldade, a lembrana do acontecimento brbaro fazia-me entrar em crise de desespero. Foi 
necessrio recordar parte do meu passado, de uma outra existncia, onde vi a ao que fiz para ter esta reao. Fui no passado distante um mercador de escravas jovens 
e bonitas, negociava-as para homens de maus instintos. Curada, adaptada, vim para esta Colnia estudar e trabalhar. Hoje sou feliz. Minha triste histria no me 
incomoda mais.
      -Ficou sabendo quem foi seu assassino?
      -Sim, fiquei. Mesmo quando revoltada, no quis me vingar. Fiquei magoada mais pela maldade, do que com ele. Perdoei logo. Este irmo que me tirou a vida fsica 
sofreu muito. No foi preso, mas a reao de seus erros veio em seguida. Tanto sofreu encarnado, como sofre desencarnado.
      -No pensou em ajud-lo?
      -Sim. No faz muito tempo, pude com permisso tentar ajud-lo no Umbral. Fui at l. No aceitou nem me ouvir. Ao me ver, gritou que era culpada por ele estar 
sofrendo. Que certamente fui dar queixa a Deus e Ele o colocou no inferno. Meus instrutores me aconselharam a deix-lo. Um dia ele entender, se arrepender com 
sinceridade e ser socorrido. Oro muito por ele.
      Que bonita lio podemos tirar da histria de Lenita!
      O trabalho da escola me fascinava. Dediquei-me tanto, que estava conseguindo timos resultados. D. Dirce estava contente comigo e Maurcio no pde deixar 
de sentir orgulho quando ela me elogiou a ele.
      Depois, estava trabalhando, ganhando meus bnus-horas. Receber meu primeiro bnus-hora foi superagradvel. Agora, no iria depender mais da vov nem dos amigos 
para ir ao teatro, s salas dos computadores, lugares que gosto de ir. Alegrei-me tanto ao receb-lo que fiquei orgulhosa, foi como receber encarnada meu primeiro 
ordenado. A sensao de autosuficincia  agradvel, no ser peso, ser til, poder colaborar  o mximo. No estava lecionando s por este motivo. Trabalho  um 
bno. Mas fiquei toda importante com os "meus" bnus, os que ganhei trabalhando.
      Tudo que narro poder parecer a muitos uma fico. Mas o que  a morte seno uma nova etapa da vida?

XIV
VISITA EM CASA
      
      Vov me disse que logo poderia visitar meus familiares. Aguardei toda contente. Estava muito bem e feliz. As recomendaes foram muitas. Em casa, vov e suas 
amigas falaram por horas.
      -Patrcia, voc em sua casa deve ficar alegre o tempo todo.
      -Lembre-se de que o lar  onde existe amor, o carinho de vocs no acabou. Continua o lar terreno sendo seu, s que no  para morar mais l.
      -Mesmo que sentir vontade de ficar, no deve. Ir somente visit-los.  aqui o seu lugar. Amamos voc e a queremos aqui. Etc...
      Tudo que se espera chega. Chegou o dia to aguardado de ir visitar meus familiares. Acompanhariam-me Artur, Maurcio, Frederico e vov. No pude deixar de 
pensar se no eram muitas pessoas para ir comigo a uma simples visita. Maurcio, como sempre lendo meus pensamentos, esclareceu:
      -Sua av vai porque quer prazerosamente acompanh-la na visita  famlia. Eu vou porque sou responsvel por voc, Artur e Frederico vo porque querem estar 
com voc desfrutando desta alegria.
      -Vamos, Patrcia -, disse Artur, alegre como sempre.
      -No vai me recomendar nada? - indaguei.
      -No - riu. -No acha que j escutou demais? Depois, com tantos acompanhantes, no duvido que seja voc a nos orientar.
      Rimos, mas estava ansiosa. Caminhamos para um dos portes.
      -Artur - perguntei -, so todos os moradores e hspedes que podem visitar seus familiares?
      -No, so poucos os que podem usufruir deste prazer. Tudo por falta de preparo e entendimento tanto dos desencarnados quanto dos encarnados. Os desencarnados 
moradores so os que j trabalham, os que so teis. Os hspedes da Colnia so os que esto em adaptao. Para visitar a Terra, necessitam estar aptos, conscientes 
da desencarnao, dos problemas dos familiares. Tm que ter total conhecimento que esto a visit-los. Estas visitas tambm tm que ser com os encarnados conformados, 
sem o perigo de eles segurarem o desencarnado. No podem usufruir destas visitas se tiverem uma leve perturbao. Muitos querem, poucos podem.
      A Colnia So Sebastio tem trs portes. So grandes, h neles trs aberturas para os aerbus passarem. Agre-se o porto inteiro, ou outra abertura de um 
tamanho mdio e uma porta. So controlados por aparelhos de que os encarnados no tm ainda conhecimentos.
      Estes aparelhos medem a vibrao de quem deve passar por eles. Tambm h trabalhadores que guardam os portes. As Colnias no so idnticas, no so todas 
iguais, porm todas tm as mesmas bases, j que seus objetivos so os mesmos: servir de moradia provisria a desencarnados. Na Colnia So Sebastio, os portais, 
ou portes, so muito bonitos, so dourados clarinho com lindos desenhos em relevo, principalmente de flores.
      A porta foi aberta e a atravessamos. Vi os muros. Toda a Colnia  cercada, ou murada; expresses, nomes dados no alteram. Ela  cercada por uma energia, 
fora magntica, s  possvel entrar e sair das Colnias pelos portes. Este muro, parede que a cerca,  do mesmo material que  feita toda a Colnia. Sendo assim, 
so poucos os desencarnados que podem atravessar esta muralha. Tambm h esta energia magntica que impede de entrar desencarnados que no podem ir  Colnia. Irmos 
estes enraizados no mal e com intenes mesquinhas.  bonita a muralha. Cheguei perto, toquei-a, olhei para cima, no vi seu final. O muro  constitudo at certa 
altura, depois s fica a energia magntica que envolve toda a Colnia. Para ver a Colnia necessita-se vibrar igual, muitos espritos ignorantes no mal no a acham, 
no conseguem v-la.
      Meus trs acompanhantes ficaram me observando enquanto olhava tudo curiosa.
      -Artur, - indaguei - sempre tive a curiosidade de saber o que acontece se um avio passar por aqui.
      -A Colnia fica longe do espao onde passam avies. Est bem mais alta. Mais alguns Postos de Socorro esto localizados no espao onde podem passar avies. 
Estes podem passar pelos Postos e no acontece nada. Colnias e Postos no so matria bruta, mas sutil.
      -E os foguetes, as naves espaciais?
      -No nos causam danos. Mas as Colnias no so imveis, podem pela fora mental dos que as sustentam mudar de lugar, se houver necessidade.
      -Vamos, falou Frederico sorrindo.
      Demos as mos. Sabia volitar, mas seria a primeira vez que volitaria rpido e em grande distncia. Deram as mos para me ajudar. Quando grupos saem, no se 
do as mos, a no ser se h algum inexperiente como eu.
      Viemos to rpido, questo de minutos, que no deu para ver nada, descemos no quintal de minha casa.
      -Entremos - convidou Artur.
      -A porta est aberta, mas se voc quiser, Patrcia, pode atravessar a parede - vov explicou.
      -Depois - respondi.
      Mame estava sentada no sof da sala fazendo croch, estava mais magra. Olhei-a demoradamente. Amo-a demais. Fiquei parada na sua frente. Vov falou carinhosamente.
      -Venha, abrace-a e beije-a.
      Aproximei-me de mansinho, beijei sua mo, seu rosto. Tendo conscincia que se  desencarnado, nota-se muitas diferenas ao aproximar-se de um encarnado. Fui 
pegar nas mos de mame, as minhas atravessaram as dela. Beijei seu rosto devagar, emocionei-me. Sempre dei valor a tudo que tnhamos, no em exagero. Sempre fui 
grata a tudo que tive e cuidei dando valor a cada objeto. Ver a casa, meu lar como sempre, dei graas ao Pai. Sempre tive muito mais que merecia. Senti vontade de 
chorar ali na frente de minha me, esforcei, levantei e refugiei-me nos braos de vov.
      -Agora - Artur disse me animando - vamos ver a Carla, depois vamos ao stio para que veja seu pai e seu irmo.
      -Voc vai volitar ao nosso lado, vamos devagar - disse Maurcio.
      Os fludos da Terra so bem mais pesados que os da Colnia. As Colnias tm boas vibraes, porque l no h maldades. Na Terra, so mentes boas e ms a vibrar. 
Muitos desencarnados das Colnias e Postos de Socorro ao voltar  Terra pela primeira vez sentem sufoco, tonteira, ligeiro mal-estar. Nada senti, estava sustentada 
pelos amigos que me acompanhavam.
      Volitamos, fiquei no meio, mas sozinha. Ver a cidade de cima, voando,  bem agradvel. Chegamos  casa de Carla, abracei-os, ela e meu cunhado Luiz Carlos, 
minha irm logo daria  luz ao meu to esperado sobrinho. Depois fomos ao stio. Como  agradvel volitar no campo, ver as rvores, as plantaes e animais. Vi Juninho 
trabalhando, dei-lhe um forte abrao. Fui at meu pai, beijei suas mos e o agradeci. Papai pensava em mim, mandava seus costumeiros incentivos. Beijei-o e abracei-o.
      Olhei para nossa casa do stio.
      -Posso, agora, passar pela parede?
      Com a afirmativa, fui em direo  casa, mas perto da parede parei.
      -Como fao?
      - simples, pensa que o far e faa.
      Realmente  simples, passei diversas vezes pelas paredes e portas.
      -Patrcia, vamos at a casa de sua tia Vera? Talvez, se tudo der certo, poder voc mesma ditar uma mensagem a sua me - Artur falou contente.
      -Transmitir uma mensagem? Pela psicografia? Mas eu no sei!
      -Aprende - Maurcio respondeu calmamente.
      "Como ser ditar uma mensagem", pensei. Curiosa dei a mo a eles e volitamos rpido.

XV
PSICOGRAFIA
      
      Entramos na casa da tia Vera, ela estava psicografando. Antnio Carlos ditava a ela que escrevia distrada e feliz.
      -Veja como  - disse Maurcio. - Faa como Antnio Carlos, tudo  simples.
      Minha tia estava sentada  escrivaninha e Antnio Carlos, sentado ao lado, ditava o que lia de um dos seus cadernos. Ele fixava seu pensamento na mente dela. 
Observamo-los por minutos. Antnio Carlos parou e disse a minha tia:
      -Surpresa! Patrcia est aqui e ir ditar a seus pais.
      Titia realmente se surpreendeu e se concentrou. Pensou em mim, aproximei-me, ela me sentiu. Este "sentiu"  ver pela percepo. Sorriu contente.
      -Como voc est bonita! Patrcia, sinta-se  vontade. Vamos escrever?
      Aproximei-me mais e a abracei. Ditei devagar e titia foi escrevendo. Foi um bilhete. Mandei abraos, agradeci, dei notcias minhas. Pedi que no se privassem 
de nada por mim.
      Realmente foi mais simples do que pensei. Explicar o que  ser mdium  complicado, ainda mais se partir para o lado cientfico. Disfuno orgnica? Um dom 
a mais? A menos?
      O importante  que se faa desta sensibilidade til pelo trabalho. Confiar na fora do Bem e se esforar para acertar. Mdiuns honestos fazem deste intercmbio 
um bem para muitas pessoas.
      Ao terminar, agradeci a minha tia e me afastei. Julgando que j tinha ido, titia chorou de saudades.
      Vi meus primos e abracei-os.
      -Maurcio, - indaguei - titia faz muitas mensagens. Desencarnados gostam de escrever?
      -Quase todos. No gostou? No  agradvel dar notcias aos familiares?
      -No conheo ningum na Colnia, a no ser vov, que escreva aos seus.
      -Psicografia no  um fato to normal assim. So muitos os mdiuns que poderiam fazer, pequena parte o faz. Isto diminui os canais de intercmbio. Depois so 
poucos os encarnados que desejam receber notcias, a maioria no cr neste possibilidade. Mensagens, como todas as graas, no devem ser ofertadas, mas pedidas.
      -Agora, passaremos novamente em sua casa para que veja sua me e voltaremos  Colnia - Artur disse, pegando minha mo.
      Beijei mame de novo, pedi a ela para ficar alegre. O telefone tocou. Era minha tia contando-lhe a novidade.
      -Voc a viu? - indagou mame emocionada. - Est bonita? Bem? Graas a Deus!
      Desligou o telefone, olhou para o quadro de Jesus que enfeita a parede de nossa sala, orou comovida, agradeceu e, com lgrimas nos olhos, rogou:
      "Jesus, muito obrigada! Cuida sempre dela para mim, por favor!"
      -Ah, Jesus! Cuida deles, por favor! - completei com fervor.
      Voltamos  Colnia. Volitamos at o porto, este foi aberto, entramos. Estava calada, v-los diminuiu minha saudade. Sabia que eles sofriam, mas estavam fazendo 
at o impossvel para que tivesse a tranquilidade necessria na minha adaptao. Mame era a que mais sofria. Maurcio disse carinhosamente:
      -Tudo passa, menina Patrcia. O tempo cura feridas.
      -Mas deixa cicatrizes - respondi.
      -Cicatrizes no doem. Voc ser sempre lembrada por seus familiares,  amada. O tempo suaviza at a saudade - Maurcio finalizou.
      -Agradeo-os por tudo - disse comovida.
      -Vamos ao teatro? - Frederico me convidou.
      Fomos, um coral de outra Colnia cantou lindas canes, distra-me. Ah, os amigos. O que seria da gente sem eles?
      Periodicamente um deles me acompanhava para visitar minha famlia, at que pude ir sozinha. Ver os familiares  uma alegria indescritvel. Frederico me explicou:
      -Patrcia, voc pode fazer estas visitas, porque no se perturba com elas. A maioria desencarnada espera muito tempo por isto. O desencarnado necessita ter 
entendimento, ter aceitado a desencarnao e os familiares estarem conformados, porque o desencarnado pode ter vontade de ficar e, s vezes, fica. Principalmente 
se o desencarnado encontra o lar terreno com muitos problemas ou quando os encarnados chamam por ele, pedindo ajuda. Os orientadores daqui tm que analisar todos 
estes problemas antes de dar autorizao a um desencarnado para visitar seus entes queridos. Porque, dependendo, estas visitas podem ser prejudiciais ao visitante.
      Sempre escrevi cartas, mensagens  minha famlia, contava a eles o que via, o que sentia, assim eles acompanhavam meu progresso, a saudade suavizava. Quando 
no podia ir ditar, um dos meus amigos o fazia por mim.
      Antnio Carlos, que sempre me incentivara a fazer as mensagens, um dia me esclareceu:
      -Patrcia, estas mensagens tambm no so privilgio. Isto pde acontecer por dois fatores: por merecimento dos seus pais e porque voc j inicia um treino.
      -Treino!?
      -Por que se espanta? Sua tia sempre lia seus pensamentos. O intercmbio  fcil entre vocs duas. Treino sim, certamente mais tarde ir querer ditar aos irmos 
encarnados tudo que v e aprende.
      -Escrever livros?!
      Ri gostosamente, Antnio Carlos riu tambm.
      -Por que no?
      -No sou escritora.
      -Aprende a ser.
      No pensei mais nisto, mais continuei com as mensagens, elas so presente, blsamo  saudade dos meus.
      Via sempre pelo aparelho de "televiso" meus familiares. Eram minutos por dia, temos que educar nossa vontade, seno podemos querer v-los a todo momento. 
Pode-se escolher horrio para v-los. Sempre o fazia  tarde ou  noite. Orava antes, via-os, desligava e voltava a orar, sempre me esforando para estar tranquila. 
Era uma exceo ter este aparelho. Foi Artur quem me deu.  raro algum ter um aparelho deste tipo. Foi possvel porque Artur, esprito simples, mas com vastssimos 
anos de trabalho til, recebera de presente pelo muito que fez  Colnia. Mas h em vrios prdios da Colnia salas com estas televises. H na escola e no hospital, 
onde desencarnados podem pedir e receber autorizao para ver seus familiares. Principalmente no hospital, onde os doentes em recuperao se preocupam com a famlia, 
desejam saber como eles esto. Antes de serem atendidos, estes pedidos so orientados. Se os instrutores acham que pode ser til, eles podem fazer uso deste recurso 
to gratificante. Passam por este processo, porque muitos desencarnados ao verem os familiares mesmo que seja pela televiso choram desesperados, piorando sua situao. 
Cada caso  um caso. Estando o desencarnado melhor, e tendo conhecimento desta possibilidade, se quer, faz o pedido e os orientadores analisam se ele vai poder ou 
no fazer uso deste maravilhoso aparelho. Assim mesmo pode acontecer de no dar certo. Se h permisso, vo com os orientadores  sala prpria. Para muitos so bnos, 
alegrias saber dos seus, v-los. Para outros, nem sempre; ver os familiares com problemas, sofrendo, no  agradvel. A maioria dos moradores daqui gosta de usar 
deste recurso, os que trabalham pagam por isto. Justo,  uma forma de incentivar o trabalho e premiar o trabalhador.
      -Artur, - indaguei - recebi muitos presentes, at de bnus-horas. Por que isto  possvel?
      -Presentear  to agradvel! Certamente temos a liberdade de usar dos nossos bnus para presentear, mas tomamos cuidado para no incentivar a preguia, a inrcia 
em quem presenteamos. Aos recm-chegados aqui, amigos e parentes gostam de agrad-los e tambm incentiv-los a serem teis.
      -Voc me deu a televiso, foi um presente to agradvel ao meu corao. Todos presentes foram dados com alegria, carinho, recebi-os com gratido.
      -Nunca usei este aparelho, recebi com carinho e guardei. Dar a voc, que o utiliza, me deixa contente,  sempre gratificante poder alegrar um amigo.
      Para todos aqueles que encaram a realidade com naturalidade, a desencarnao no os separa dos entes amados e ausncia fica menos sentida.

XVI
UNS VM, OUTROS VO
      
        Dedicava-me cada vez mais ao trabalho na escola. Todas em casa trabalhavam. Como os turnos eram em horrios diferentes, em raros momentos estvamos todas 
em casa. Estava gostando muito da escola. D. Dirce era encantadora, gentil, sempre pronta a nos esclarecer, tirar qualquer dvida. Ela usa sempre um conjunto de 
saia e casaco cinza-claro,  elegante, extremamente simptica. Um dia, ao observ-la, me esclareceu bondosamente:
        -Quando encarnada, gostava muito de um traje parecido com este. At esqueo deste detalhe, roupa e moda. Sinto-me bem assim.
        -A senhora est muito bem,  elegante.  que encarnada nunca pensei como os desencarnados se vestiam, ainda reparo nestes detalhes. Me desculpe se a observava.
        -No tem por que desculp-la, logo estes detalhes no a preocuparo mais. Muitos encarnados pensam que desencarnados s se vestem de branco no Plano Espiritual 
e nas Colnias. Talvez esta idia veio porque aqui se vestem simplesmente. Vestem-se como querem. Os que trabalham aqui em hospitais e nas equipes mdicas normalmente 
se vestem com roupas claras ou brancas. Os jovens preferem roupas coloridas e agora at jeans. S somos educados para nos vestirmos decentemente e no abusar das 
tonalidades fortes. Cores neutras, claras, descansam a vista.
        No comeo, trocava sempre de roupa, achava to estranho vestir uma s roupa, fui trocando cada vez menos. Preferindo calas compridas e camisetas. Mas a 
maioria, principalmente os mais velhos moradores da Colnia, no troca de roupa, como D. Dirce. E ningum presta ateno neste detalhe, ningum lhe chamava de mulher 
de cinza, fato que ocorria entre os encarnados.
        Meus alunos eram uns amores. Todos educados, querendo aprender. Eles tambm quase no trocavam de roupa. A maioria trabalhava no perodo da manh e estudava 
 tarde. Os alunos so separados em classes conforme suas necessidades. Os que tm mais facilidade para aprender e os que tm mais dificuldades. Lecionava para os 
que tinham mais dificuldades. Eles tm conhecimentos deste detalhe. No se sentem humilhados, mas, sim, incentivados a aprender. Normalmente tinha que explicar as 
lies vrias vezes e o fazia com gosto.
        Como dormia menos, tinha mais tempo livre, quis trabalhar tambm no perodo da manh. Frederico me convidou para ajud-lo. Comecei com muito gosto a trabalhar 
com ele. Frederico atendia no hospital os doentes em estado de recuperao, os melhores. Numa salinha, conversava com os que o procuravam, ajudando-os a resolver 
seus problemas. Ficava como uma atendente, uma espcie de secretria, fazia ficha de atendimento, encaminhava os pacientes. Marcela, uma enfermeira que trazia os 
pacientes, me explicou:
        -Dr. Frederico  timo profissional, gostaramos de t-lo sempre aqui. Tem nos ajudado bastante como conhecedor e estudioso do comportamento humano, tem 
resolvido de modo satisfatrio inmeros problemas. Est aqui entre ns temporariamente, veio para auxiliar um ente querido na sua adaptao, aps, deve voltar a 
lecionar nas Colnias Universitrias.
        Tive a certeza de que era eu o ente querido que Frederico auxiliava. Sentia que o conhecia, que estvamos ligados por afeto sincero e puro, s no conseguia 
lembrar. Tambm no me preocupei com este detalhe. Quando chegar a hora lembrarei, tudo tem seu tempo. Recordaria no momento certo.
        Um dos meus alunos, Jaime, convidou-me para ir a uma festinha em sua casa. Iriam despedir-se de um dos seus filhos que logo reencarnaria.
        -Venha, Patrcia, - disse ele - vamos incentiv-lo e lhe desejar que a reencarnao seja proveitosa.
        Vov me acompanhou. A casa de Jaime  agradvel como todos os lares da Colnia. Jaime mora com muitos parentes. Leonel, seu filho, deveria retornar logo 
 carne. Como todos por aqui, Leonel sentia medo e insegurana, pois sabia que o mundo material  muito ilusrio. Os amigos o animaram. Jaime leu o texto do Evangelho 
de Joo, III: 1-12. Texto em que Jesus explica a Nicodemus a necessidade de renascer. Aps, oramos em conjunto. Leonel agradeceu comovido. Foi uma reunio agradvel, 
onde o neto de Jaime tocou violo e cantou lindas canes.
        - estranho fazer festa para um esprito que vai reencarnar - comentei com a vov.
        -Nem tanto assim, amigos se despedem, animando Leonel. Isto  a vida! Infelizmente no so todos que vo reencarnar que recebem este carinho.
        Despedimo-nos de Leonel, desejei de todo o corao xito na encarnao que tinha por bno para progredir.
        Luza, uma das moradoras de nossa casa, estava aflita esperando a desencarnao de seu pai. Quando a avisaram que se aproximava a hora, ela pde ir ter com 
ele e ajud-lo. Desligou-o da matria e o levou para um Posto de Socorro. Ela sabia que ele no tinha conhecimentos nem merecimentos para estar bem e tranquilo. 
Triste, comentou:
        -Sou grata a Deus por ter podido tir-lo do corpo morto e lev-lo para um socorro. Agora, depender dele ficar no Posto de Socorro ou no. Estou orando muito 
por ele.
        -Uns vo, outros vm! Ontem fomos  festa de despedida de Leonel que vai reencarnar. Hoje  seu pai que desencarna! - exclamei pensativa.
        Meu sobrinho estava para nascer, a expectativa era grande. No tempo previsto este esprito querido de todos ns nasceu. Pertence ao nosso grupo familiar, 
antes de reencarnar ele sabia que a famlia passaria por este perodo difcil. Encantou a todos, principalmente a minha me. Rafael chorava, s quietava nos braos 
da av, chamando assim minha me para a realidade da vida, uns vo, outros vm.
        Artur me presenteou com um pster do Rafael que coloquei na parede do meu quarto. Plasmar foto  fcil para aqueles que sabem, tambm no  difcil aprender. 
Na escola, h cursos para aprender pela fora do pensamento a plasmar no papel, onde quer que seja, uma gravura, uma foto, etc. Em casa, todas as moradoras tm fotografias. 
Vov tem as paredes de seu quarto cheias de fotos, dos filhos, netos e bisnetos. Artur prometeu que todo ms iria trazer uma foto do Rafael para que pudesse acompanhar 
seu crescimento.
        Quinze dias aps o nascimento de Rafael, pude v-lo. Maurcio e vov me acompanharam. Vi meu pai, meu irmo, fiquei contente por ter encontrado mame melhor. 
Volitei tranquilamente entre os encarnados, atravessei portas e paredes.
        Emocionei-me ao ver meu sobrinho. To lindo! Estava acordado e quietinho em seu bero. Aproximei-me e o abracei, ele sentiu meus fluidos e sorriu.
Fiquei to feliz! Desejei muito ser tia, v-lo encheu-me de orgulho. Ser tia  maravilhoso!
XVIII
NECESSIDADES
        
        Um dia Maurcio e eu fomos  Biblioteca. Em uma das estantes h uma divisria espelhada, olhei observando-me e ajeitei meus cabelos, que para minha comodidade 
ficavam sempre como desejava. Maurcio sorriu e comeamos a falar sobre necessidades.
        -Patrcia, - meu amigo explicou - encarnados no julgam que a vida continua e sem saltos. As necessidades do encarnado acompanham-no como os reflexos da 
doena. So poucos, pouqussimos os que ao desencarnar entendem e se libertam imediatamente destes reflexos, das necessidades, a maioria s aos poucos vai deixando.
        Oscar, um conhecido, j havia sido apresentada a ele, trabalha na biblioteca. Estando perto, parou com sua pesquisa e ficou escutando a preciosa lio. Com 
ele, estava um rapaz. Acabou por participar da nossa conversa.
        -Desculpe a intromisso. Este  Ramiro - apresentou-nos o rapaz. Aps os cumprimentos, Oscar continuou a falar. - Estou bem categorizado como a maioria a 
que Maurcio se referiu. O senhor tem razo, necessito progredir e agora. O comodismo, o estar muito bem assim, faz com que paremos. J estive pior, mas no  por 
isto que no posso estar melhor.
        -Realmente - disse Maurcio - devemos ser aqui e agora. O que e como fazemos  o que somos.
        Curiosa, indaguei:
        -Oscar, como foram suas necessidades?
        -Foram bem diferentes das suas. Voc, Patrcia, veio sem vcios, nem de carne se alimentava. Quem no cria hbitos se adapta com mais facilidade. Voc no 
deixou para depois, fez encarnada, eu, por minha vez, fiquei adiando minha transformao sempre para depois, mesmo quando aqui cheguei. Voc no ficou com atos externos, 
fez interiormente. A simplicidade facilita. Observe que no Educandrio as crianas se acostumam rpido e logo a maioria aprende a tirar da natureza e com naturalidade 
seu alimento. Eu, quando encarnado, nada conhecia do Mundo Espiritual, tinha religio de forma externa. Desencarnei e fui para o Umbral. No era receptivo para ter 
um socorro e, se no sofresse, no iria dar valor ao que uma Colnia Espiritual oferece. Acho mesmo que, se viesse logo que desencarnei para c, nem ia gostar. Senti 
dores horrveis, o reflexo das minhas doenas. Tinha fome, sede, sentia calor e frio. Alimentava-me de plantas que encontrava, tomava gua de filetes sujos, tambm 
evacuava e urinava pelos cantos, pelo cho. Ansiava desesperado pelo cigarro e pelos meus aperitivos. Sofri muito. Por anos fiquei no Umbral. Um dia, um parente 
desencarnado que vagava como eu, mas que sabia ir entre os encarnados me levou para meu ex-lar terreno. Este parente vagava entre os encarnados e pelo Umbral. Fiquei 
com meus familiares. Senti-me melhor. Perto deles, tragava os cigarros quando eles fumavam, bebia e comia.
        -Como?! - quis saber.
        -Troca de energia. Se voc fica perto de um fumante, sente a fumaa, se ficar colado, fuma junto. Alimentava-me quando eles iam tomar as refeies, sentava 
 mesa, inalava os fluidos dos alimentos. E sugava as energias dos encarnados. Com isto melhorei, mas no estava bem. Sentia dores e frio, estava triste e insatisfeito. 
Notei que os estava prejudicando, fiquei chateado. No queria voltar para o Umbral e no sabia como resolver este problema. Acabei por cansar e querer uma outra 
forma de vida. Comecei a orar, a pedir a Jesus que me auxiliasse. Um dia, para minha alegria, um  socorrista veio em meu auxlio e fui conduzido a um Posto de Socorro. 
Fiquei internado em tratamento, fui melhorando aos poucos. Alimentava-me quatro vezes ao dia. Esforcei-me para largar o tabaco, pois nos Postos de Socorro e nas 
Colnias (Postos de Socorro so na maioria pequenos locais de primeiros socorros, esto localizados na Crosta e nos Umbrais. As Colnias so maiores, so cidades 
espirituais.) no  dado cigarro, mas sim um tratamento para largar o vcio. De qualquer forma, a luta  de cada um. Graas a Deus, consegui, logo no tinha vontade 
de fumar. Mas demorei para me recuperar. Encarnado, tomava banho diariamente, era higinico. No Umbral  sujo, no h como se banhar. Sentia falta desta higiene, 
mas a fome, a sede e as dores eram minhas primordiais necessidades. Quando fui socorrido, estava feio e sujo. No Posto de Socorro tomava banho todos os dias, usava 
o banheiro para minhas necessidades.
        Oscar fez uma pausa e Maurcio aproveitou para nos dar alguns esclarecimentos.
        -Nas cidades do Umbral, seus habitantes, irmos ignorantes no mal, a higiene no est nos seus costumes. Porm, sabemos que muitos deles se higienizam de 
forma rudimentar. Conheci muitos habitantes do Umbral relativamente limpos. Isto depende de cada um. Mas, como Oscar narra, com dificuldades mais srias, a higiene 
fica em segundo plano. Os que vagam sofrendo pelo Umbral no conseguem higienizar-se.
        -Recuperado - Oscar continuou - quis entender o que se passava comigo, vim para a Colnia estudar e trabalhar. Nada entendia da existncia desencarnada, 
necessitava aprender. Hoje, anos depois, gosto de ler, saber, trabalho, estou tranquilo, alimento-me pouco e minhas necessidades fisiolgicas so poucas. Aqui estou 
bonito e sadio. Meus cabelos (passou a mo na nuca) no me preocupam.
        Rimos, Oscar  careca, tem poucos cabelos.
        -O que demorei para largar foram meus culos - continuou nosso amigo -, tinha a impresso que sem eles no enxergava. Por incrvel que possa parecer, estive 
sempre com eles, no Umbral e vagando.
        - mesmo! - exclamei. -No  comum ver algum de culos aqui. Lembro que vov Amaziles usava encarnada culos e agora enxerga muito bem.
        Maurcio nos esclareceu.
        -Defeitos, doenas, so do corpo carnal. Embora a impresso destes possa ser forte no corpo perispiritual. Aqui, basta compreender, aprender, para sentir-se 
sadio. Quando digo aqui me refiro s Colnias e Postos de Socorro. Quem vaga ou por afinidade acaba nos Umbrais, quase sempre tem doenas e deficincias como acompanhantes. 
Muitos desencarnados bons, ao quererem se identificar entre os encarnados, podem plasmar culos, ou at mesmo deficincias. O livre-arbtrio  respeitado. Conheo 
alguns espritos bons, trabalhadores do Bem, que no querem se desfazer das deficincias, dos culos ou das bengalas. Esto bem assim, usam porque querem. Como Oscar, 
 careca porque quer. Se quisesse, teria uma bela cabeleira.
        Rimos.
        -Realmente - disse Oscar -, identifico-me com minha careca e no acho uma deficincia. Mas o que acho bom mesmo  no ter que ir ao dentista.
        - mesmo! - exclamei novamente. - No pensei nisto, tenho visto aqui todos com dentes perfeitos.
        Maurcio aproveitou para nos esclarecer.
        -Patrcia, todos aqui na Colnia podem ter dentes perfeitos. Ao se recuperar de doenas, recupera-se tambm a dentio e no estraga mais, nada de cries. 
Infelizmente, os desencarnados que vagam, os que no so socorridos, continuam como estavam, se no tinham dentes continuam banguelas. No tenho conhecimentos que 
estragam mais os dentes, creio que continuam como desencarnaram.
        -Aqui na Colnia no ficamos mais doentes? - quis saber curiosa.
        -Uma vez sadio, sempre sadio. Um desencarnado bem aqui na Colnia e nos Postos de Socorro no adoece mais. Mas, se no esto totalmente recuperados e saem 
sem permisso, voltam para os ex-lares sem autorizao, ou seja, vo vagar, quase sempre voltam a sentir os reflexos de suas doenas. No sabem ainda se manter sadios 
sem os fluidos benficos destes lugares. Mas os que seguem os regulamentos continuam sempre bem. No h por que ter doenas.
        -Maravilha! - exclamei.

XVIII
A HISTRIA DE RAMIRO
        
        Ramiro nos escutava com ateno, ento lhe perguntei:
        -E voc, Ramiro, no quer falar um pouco de si? Escutar amigos  obter informaes.
        -At pouco tempo envergonhava-me de falar de minha vida encarnada, da minha desencarnao. Depois, aprendi que todos ns temos nossas histrias e que aqui 
na Colnia no h crticas e, sim, ajudas. Tem razo, Patrcia, escutar amigos  receber preciosas lies. Minha desencarnao foi bem triste. Por que a maioria 
das desencarnaes  triste?
        Fez-se silncio de minutos. Realmente, pensei. De quase todos aqui, escutei: "Minha desencarnao foi triste... ou sofri muito na minha desencarnao..." 
Foi Maurcio quem respondeu:
        -Porque a maioria no pensa na desencarnao para si, no se prepara para a continuao da vida. Vivem encarnados como se fosse seu objetivo maior, amam 
mais a matria que as verdades espirituais. No amam o verdadeiro e, sim, as iluses da carne e a elas ficam presos. Desesperam ao deixar o corpo fsico perecvel, 
esquecem que este veculo fsico  temporrio. No vivem de conformidade com os exemplos de Jesus, temem a morte do corpo. Assim sendo, a desencarnao  triste 
e dolorida. Mas os bons, os que encarnados serviram ao Pai, viveram os ensinos de Jesus, nada temem e a desencarnao  uma alegria.
        Maurcio quietou e olhamos para Ramiro, convidando-o a continuar narrando. Nosso amigo no se fez de rogado.
        -Desencarnei jovem. Tomava drogas, no era ainda um dependente, eu pensava no ser. Iludimo-nos muito ao fazer uso de drogas, achamos que paramos quando 
queremos, mas ao tentarmos nos libertar  que compreendemos o quanto estamos presos a elas. Comecei com maconha e passei  cocana. Minha famlia no sabia, no 
soube. No tinha motivos para justificar meu envolvimento com as drogas. Agora, tenho certeza que no h motivos que justifiquem esta loucura. Comecei quando namorei 
uma garota muito bonita e cobiada pelos rapazes da escola. Ela e sua turma fumavam e me induziram a fumar maconha. Com medo idiota de ser tachado de bobo, imaturo, 
etc., passei a fumar. Terminei o namoro mas fiquei na turma. Numa corrida, num "racha" com uma moto emprestada, tive um acidente. Ca da moto e bati com a cabea 
numa pedra. Meu corpo morreu na hora.
        Fiquei muito perturbado. Vaguei por entre os familiares e com os amigos da turma. Os membros da minha turma deram uma parada com as drogas, temeram com a 
minha desencarnao. Alguns dias depois que desencarnei comecei a sentir falta da cocana. Todo meu perisprito ansiava pela droga. Foi horrvel. Em casa, o desespero 
de ver minha me chorar agoniava-me. Sentia-me culpado. E fui. Desencarnei por minha imprudncia, por brincar com a moto, veculo to perigoso e por estar drogado. 
Desencarnei antes da hora prevista. O sofrimento dos meus me enchia de culpa e remorso. Incomodava-me ficar em casa, sa e vaguei. Entendi que desencarnara, embora 
no soubesse ao certo o que ocorrera comigo, meu corpo morreu, mas eu continuava vivo e no sabia o que fazer. Foi aumentando a vontade de injetar cocana. Nunca 
pensei em sofrer tanto. Esta foi minha necessidade primordial. No me interessava em alimentar, com frio ou calor, s vezes sentia sede. Resolvi buscar a droga. 
Sabia de outra turma que tomava muito mais drogas que a nossa. Fui procur-los. Nem me aproximei. Ao lado deles estavam monstros horrveis. Mais tarde vim a saber 
que eram to somente desencarnados viciados, irmos em sofrimentos, presos a drogas a vampirizar encarnados viciados.
        Estava desesperado. Sentia minha av orando por mim. Minha av era esprita, o que era motivo de gozaes de nossa parte, principalmente dos netos. Pensei: 
no  que minha av deve estar certa! Morri e estou aqui como esprito vagando. Lembrei dos termos que ela usava. Sabia onde se localizava o Centro Esprita que 
ela frequentava e fui andando at ele. Estava aberto. Entrei envergonhado. Quando um senhor, um socorrista desencarnado do Centro me indagou o que queria, falei 
implorando: "Me socorre pelo amor de Deus! Aqui no ajudam espritos que vagam? Morri e no sei o que fazer. Estou desesperado. Quero tomar uma dose de cocana, 
seno morro. No posso morrer outra vez, no ? Se no posso morrer de novo, no sei o que acontecer se no tomar a cocana. Minha av frequenta aqui. Socorre-me!"
        O socorrista me olhava bondosamente, ca nos seus braos e dormi. Sou grato aos Espritas, s pessoas bondosas que me acolheram. Fui levado para um hospital, 
a um ala onde se faz a recuperao de viciados em txicos. No foi fcil minha luta com o vcio. Desesperava e era bondosamente auxiliado pelos irmos que l trabalham. 
Foram muitos meses em tratamento. Tomava passes, aprendi a orar, nos momentos que no estava em crise, lia livros Espritas e o Evangelho. Tomava refeies, gua, 
banhava-me somente quando me sentia melhor.
        Quando melhorei, fui ver outros irmos imprudentes como eu. O que vi, no esqueo. Sofrimentos que nunca pensei existir. Vi muitos jovens deformados, dbeis 
em recuperao, iguais aos que julguei serem monstros. Entendi que socorridos estavam no caminho que os livraria do sofrimento. Pior eram os que no tinham socorro, 
os que no queriam se libertar. Compreendi que no sofri tanto porque minha av com suas oraes sinceras me guiou. E tambm porque no fiz outras aes erradas, 
no cometi crimes to comuns entre os toxicmanos. E busquei logo um socorro, seno ia vagar em sofrimento como tantos outros. Desintoxicado vim para o Educandrio, 
onde estudo e me preparo, quero, no futuro, ser um socorrista de irmos escravos dos vcios. A necessidade que tive desencarnado foi para meu sofrimento, minha agonia, 
a cocana. S ansiava, desesperado, por ela.
        Ramiro calou-se e foi abraado por Maurcio.
        -Estamos presos aos que nos ligamos quando encarnados. Tenho certeza de que voc, meu jovem, ser um excelente socorrista.
        -Ser, sim! - Oscar falou, sorrindo.
        Ramiro, aproveitando a presena de Maurcio, indagou-o vido por aprender.
        -Maurcio, o que acontece com as pessoas com doenas como o cncer, que tomam remdios fortes para conter as dores e que muitas vezes estes medicamentos 
abreviam a existncia encarnada. Elas tambm sentem falta dessas drogas quando desencarnadas? Est errado tom-las j que abreviam a existncia corporal?
        -Cuidar do corpo fsico  obrigao de todos ns que por um perodo temo-lo para viver encarnado. Temos que dispor do que a Medicina terrena nos oferece 
para curar as doenas. Se o que dispomos para amenizar nossas dores pode abreviar a existncia, no  culpa nem dos mdicos nem dos doentes. Acredito que a cincia 
logo encontrar novas formas de alvio e curas. Mas, meu jovem Ramiro, ao tomar uma droga como medicamento indispensvel, ela no nos far falta quando desencarnados. 
Porm, como mdico socorrista, h anos vejo muitos agirem de vrias formas diante da dor. Os que sofrem doenas dolorosas no corpo, com resignao, so socorridos, 
logo esto bem. Os que se revoltam diante da mesma dor desencarnam, nem sempre podem ser socorridos e sentem os reflexos da doena e as dores. Querem, s vezes, 
os remdios para se curar, suavizar as dores. Mas no so viciados, no sentem falta da droga, pois as tomaram como medicamento. Tenho visto, aqui, pessoas que ficaram 
dependentes de sonferos. Quando socorridas, tm que aprender a dormir sem eles, tm de se livrar desta dependncia. Remdios devem ser tomados quando necessrio. 
E nos casos de cncer, doena que normalmente provoca dores terrveis, mesmo se acontecer de abreviar a existncia  certo tom-los.  o que a Medicina dispe como 
tratamento. O uso  permitido, o mau uso  que  condenado.
        Aquietamo-nos por momentos. Achando que podia nos elucidar mais, bondosamente Maurcio completou:
        -Podemos dizer que os habitantes da Terra sejam encarnados ou desencarnados so de dois modos. H os que por esforo se tornam auto-suficientes ou servos 
teis e h os necessitados, embora entre os dois haja aspirantes, os que querem aprender a ser teis. A faixa dos primeiros infelizmente  pequena. Basta observar 
nos Centros Espritas: os que vo para ajudar so poucos e grande parte so necessitados porque querem. Tendo oportunidade no querem passar de necessitados a auto-suficientes; 
estas necessidades acarretam sofrimentos como ocorreu com Oscar e Ramiro, e ocorre com tantos outros. Ser ou no ser. Encarnado ainda pode enganar e iludir-se. Desencarnados 
no h como enganar. Os fluidos, vibraes de um esprito bom, so agradveis e os fludos dos espritos ignorantes so maus. O esprito tem sempre muitas oportunidades 
e pode pelo seu livre-arbtrio refletir o belo e o bem, ou o feio e o mal. O belo e o bem se apresentam na harmonia, no equilbrio. E desta harmoniosa unio surge 
o amor que leva a progredir espiritualmente. O feio apresenta-se na turbulncia da ignorncia, gerando o dio, a inveja, os desejos insaciveis, o egosmo que  
a maior chaga perturbadora, o luxo e a luxria, tornando o homem um verdadeiro vulco de conflitos interiores, tornando a vida humana um inferno seja encarnada ou 
desencarnada.
        Devemos compreender sem iluso o que realmente somos e no o que pensamos ser e com coragem realizar nossa transformao. Ser agora no presente. O futuro 
 uma consequncia vivida do presente e no fruto de aspiraes de uma mente ociosa que deixa sempre esta transformao para depois.  nossa obrigao passar de 
necessitado a til.
        Oscar, Ramiro e eu agradecemos comovidos a Maurcio pela bela lio. Prometi a mim mesmo no ter mais necessidades, no somente as que se refletem do corpo 
fsico como a de alimentao, a de dormir, etc. Mas as principais: no ser pedinte de graas, no querer que outras pessoas faam o que posso fazer e tambm aprender 
para ser til e para servir.

XIX
TMULO
        
        Estava realmente querendo aprender, curiosa e interessada, indagava sempre aos meus amigos e orientadores as dvidas que iam surgindo. Gostava cada vez mais 
do Mundo Espiritual. Sentia que minha encarnao foi um perodo de viagem e que agora retornava ao meu verdadeiro lar. Foi com muita alegria que aceitei o convite 
de Artur para assistir a uma reunio Esprita no Centro que minha famlia frequenta. Fomos bem antes da hora do incio da reunio. Visitei todos meus familiares, 
alguns tios e algumas amigas. Como ainda tnhamos tempo, Artur me convidou:
        -No quer ir ao cemitrio e ver onde seu corpo est enterrado?
        -Estranho pensar que meu corpo est enterrado, no o sinto.
        -Ainda bem! Nosso corpo de carne  uma vestimenta querida. Voc o respeitou, cuidou bem dele, mas  perecvel, no esqueceu disto. Vive bem sem ele. A maioria 
sofre tanto sua perda.
        Fomos. O cemitrio  um local contraditrio. Uns acham triste e no gostam, outros se deliciam passeando,  agradvel a eles. Lugar de sofrimentos a muitos, 
como tambm de trabalho a tantos socorristas. Fomos andando e fui observando tudo. Sentado no muro estava um grupo de espritos ociosos, feios e sujos contando anedotas, 
gargalhando. No nos viram, s conseguiriam nos ver se quisssemos. Somos mais sutis, eles vem os que vibram igual na matria.
        No paramos. Logo na entrada escutei gemidos, ais desesperados que saam de alguns sepulcros.
        -Muitos inconformados com a morte do corpo no querem larg-lo - Artur explicou.
        Vi os socorristas, espritos que pacientemente tentam ajudar, amenizando os sofrimentos de irmos imprudentes que amaram mais a matria perecvel que a espiritualidade. 
Os socorristas tambm tentam orientar os arruaceiros que esto sempre no cemitrio, mas no moram l. Estes espritos bagunceiros vo visitar os cemitrios por no 
ter algo mais interessante para fazer.
        Ao me aproximar do local onde meu corpo foi enterrado, vi duas senhoras que no conhecia comentando baixo:
        -Patrcia morreu to jovem, era bonita e educada.
        -Estudava e trabalhava, era um ser til, tinha futuro. Coitada!
        Oravam com sinceridade para mim.
        -Elas no sabem que tenho um presente e futuro lindos - comentei.
        -O no entendimento da continuao da vida leva muitas pessoas a terem pena de quem desencarna. A desencarnao para as pessoas boas  Paz e Alegria. Para 
os mau e ociosos,  o comeo de sua colheita. Fiquei grata s duas senhoras, orei por elas agradecendo-as. Envolvi-as em fluidos de Paz. Artur me esclareceu:
        -A orao muitas vezes no atinge a quem se pretende beneficiar, indiscutivelmente, beneficia a quem ora.
        Andamos mais uns metros em silncio, Artur parou e mostrou.
        - aqui!
        Olhei analisando.  um tmulo simples bem a gosto dos meus familiares. Sinceramente, nada senti. Li devagar os dizeres que meu pai sabiamente colocou: "Aqui 
jazem os restos mortais do corpo fsico que Patrcia usou para viver e manifestar-se em nosso meio. Saudades".
        Fiquei por minutos a olh-lo e a meditar. Sabia de antemo que meu esprito sobreviveria  morte do corpo. Agora compreendia o que Jesus falou: "Deixai os 
mortos enterrar os mortos." Alm da morte fsica, muitos estavam mortos espiritualmente. Olhei em volta, vi espritos que, alm de ter perdido o corpo fsico, continuavam 
cegos, surdos e mudos para a vivncia na unidade com Deus. Enfim, mortos para a verdade eterna. Observando melhor, vi que no havia diferena substancial entre o 
encarnado avesso ao esprito e o desencarnado esquecido de sua semelhana com Deus. Os fluidos tanto de um como de outro eram apagados, feiosos, at cheirando mal, 
como encarnados que vibram mal e no fazem suas higienes corporais.
        -Vamos, Patrcia - Artur me chamou.
        -Sim.
        Foi um alvio sair do cemitrio, no gostava de ir encarnada e nem desencarnada.
        Fomos ao Centro Esprita. Encantei-me, junto com a construo material existe a construo de energia mental que os desencarnados no podem atravessar. Por 
isso muitos desencarnados se julgam presos em alguns Centros Espritas. Mas, se l ficam,  para esperar a hora certa para uma orientao ou ajuda para seus males.
        O Centro Esprita  simples, conhecia-o bem. A construo mental que somente os desencarnados vem  bem grande,  um Posto de Socorro onde atendem desencarnados 
enfermos. Tem um ptio para os encarnados, para nos, um jardim. Tudo muito limpo e confortvel. Os trabalhadores me cumprimentaram sorrindo como se me conhecessem.
        -De fato a conhecem - Artur me esclareceu. -Voc frequentava o Centro Esprita encarnada. Tantas vezes orou pelos irmos infelizes.
        Respondi timidamente aos cumprimentos e agradeci os agrados.
        -Patrcia - disse Artur - tenho trabalho a fazer. Voc ficar aqui com Tio e Loureno. Quando for comear os trabalhos mando busc-la.
        Estvamos na frente do Centro Esprita. Para os encarnados h um porto, um corredor e uma porta. Para ns, aps o porto, um corredor mais estreito e uma 
saleta onde est a recepo. Local onde so atendidos os desencarnados que ali vo em busca de socorro e orientao. So atendidos e encaminhados aos trabalhos e 
 ajuda necessria. Como vo os encarnados em busca de ajuda, vo tambm muitos desencarnados.
        Curiosa, fiquei observando tudo. E comearam a chegar os que pediam auxlio. Muitos vinham acompanhando os encarnados. Uma senhora veio pedir pelo filho, 
tambm desencarnado, que vagava pelo Umbral. Um senhor veio pedir ajuda para a filha encarnada que se achava em crise conjugal por influncia de um desencarnado 
perturbado. Tio e Loureno anotavam os pedidos, depois os orientadores estudavam, e procuravam atend-los no que fosse possvel.
        Um senhor idoso aproximou-se, andava com dificuldade e se queixou.
        -Vim aqui pedir ajuda ao "seu Z". H tempo estou doente e vou piorando. De uns tempos para d, todos parecem me ignorar, no me do ateno, remdios, no 
conversam comigo. No lhes fiz nada. Como sei que "seu Z" ajuda a muitos, venho pedir-lhe ajuda. Posso falar com ele?
        Falava mole, olhando para os lados, de repente, encarou-me.
        -Valhe-me Deus! - gritou. -A filha morta de "seu Z"! Uma assombrao! Acuda-me!
        Corri e me escondi atrs de Tio. No sabia o que fazer. Loureno aproximou-se dele, acalmou-o com passes, outros trabalhadores vieram e levaram-no para 
o interior do Centro.
        -Logo mais receber a orientao atravs de uma incorporao - Loureno disse sorrindo.
        -Tenho jeito de assombrao? - indaguei rindo para meus amigos. -Que susto o coitado levou! No queria assust-lo e nem quero assustar ningum.
        -Voc no assombra, enche de luz e alegria onde esteja - Loureno falou bondosamente. -Desencarnado que no sabe reconhecer seu estado temo outros desencarnados, 
muitos tm medo at de entes queridos.
        Continuei l, tentando ajudar no que era possvel, estava anotando pedidos distrada, quando escutei:
        -Psiu...
        -Olhei e vi um rapaz que sorriu.
        -Oi, disse ele.
        -Oi, respondi.
        -Voc me v?
        -Vejo.
        -Que legal! Comeava a temer que estava ficando invisvel.
        Parei de escrever e olhei-o. Era jovem, estava bem vestido, s que sujo. Continuou sorrindo e me olhando.
        -Faz tempo que no converso com uma gata. Sabe que  bem bonita? Quando larga seu servio? Posso esper-la e lev-la para casa ou mesmo para passear um pouquinho?
        Fiquei surpresa e novamente no soube o que fazer. Loureno veio em meu auxlio.
        -Oi, meu rapaz! No quer entrar e entender por que a maioria o julga invisvel? No tenha medo. Venha, necessita conversar.
        O rapaz sentiu receio, mas a fisionomia de Loureno inspirou confiana. Entrou com ele mas, antes, virou para mim e disse:
        -Espere-me no final, quero conversar com voc, gatinha.
        Loureno voltou logo.
        -Patrcia, este moo no sabe que desencarnou, receber tambm orientao.
        -Puxa, que noite! Primeiro assusto, depois sou paquerada.
        No aguentei e dei uma boa risada.

XX
NO CENTRO ESPRITA
        
        Quando estava para comear a reunio, Maurcio veio me buscar e fomos para o salo. Ficamos na parte direita de quem entra e sentamos. Este espao  reservado 
a visitantes desencarnados. Sentamos em cadeira plasmada acima do solo material e no nas cadeiras dos encarnados. Conhecia todos os encarnados presentes, foi prazeroso 
v-los. Fiz a eles uma orao de gratido, oraram muito por mim. Havia muitos desencarnados, trabalhadores, visitantes como eu e os que iam ser orientados e socorridos. 
Estes ltimos formavam filas que os trabalhadores do Centro organizavam para que tudo sasse a contento.
        Vi o moo que conversou comigo na fila. Olhava-me fixamente. Ao olh-lo, ele sorriu e acenou a mo. Maurcio, vendo meu constrangimento, sorriu. De novo, 
no soube o que fazer. O moo continuou a acenar a mo, acenei a minha num tchauzinho. Ele ficou contente, acomodei-me atrs de Maurcio para que ele no me visse 
mais.
        Um encarnado se apresentou acompanhado de um desencarnado, visivelmente atuado, e fez uma pergunta sobre um assunto que lhe afligia. Para ns desencarnados 
este senhor era portador de mediunidade.
        -Todos os mdiuns tm que frequentar um Centro Esprita?
        -Todos ns somos livres para decidir o que queremos. Temos o nosso livre-arbtrio. Frequentam o Centro Esprita os que querem. Trabalham com a mediunidade 
os que querem ser teis. O sensitivo precisa da assistncia, da presena de amigos desencarnados. Esta  a razo de os mdiuns normalmente precisarem ir a um Centro 
Esprita. Estes amigos desencarnados so espritos bons que nos ajudam na vida cotidiana. Eles vo aconselhar, evitar que zombeteiros e espritos necessitados possam 
perturbar o sensitivo. Para que haja esta ajuda, estes desencarnados, que so espritos que querem crescer e trabalhar no Bem, condicionam a companhia do mdium 
tambm a estes trabalhos. Se o mdium encarnado no participa de um grupo, o desencarnado vai continuar participando e ajudando. No ir parar porque o encarnado 
no quer trabalhar, s que no ir ajud-lo. O desencarnado dispe-se a ajudar o mdium, mas lhe quer como companheiro, que trabalhem e cresam juntos. Nos trabalhos 
de um Centro Esprita ambos aprendem e crescem, vo participar do socorro a desencarnados e a outros encarnados.
        O mdium, no frequentando um Centro Esprita e no tendo a companhia de desencarnados bons para ajud-lo, sofre as consequncias de energias nocivas. Ou 
aprende pelo estudo e pesquisas a se livrar deles ou vai trabalhar na companhia dos bons desencarnados fazendo o Bem.
        Todos ns devemos nos transformar e ajudar na transformao de outros para que sejam felizes um dia.
        O mdium no tem que ir a um Centro Esprita, ele necessita ir para ser ajudado e aprender ajudar. Para isto, no existe lugar melhor que o Centro Esprita.
        Um frequentador do local, um encarnado querendo aprender, indagou a meu pai:
        -Podemos tirar lies de perseguies que desencarnados ignorantes nos fazem?  certo querermos nos livrar deles? Tenho visto muitas pessoas que aqui vm, 
resolvem seus problemas e no voltam mais.
        Papai pensou rpido e respondeu:
        -Muitas pessoas vo aos Centros Espritas pedir ajuda para livrar-se de seus desafetos, como se fossem a uma loja buscar algo que querem para seu conforto. 
Muitos vo ao Centro Esprita achando que esto fazendo favores aos seus laboriosos trabalhadores e querem solues. Estes encarnados que assim agem no vem que 
se algo est errado com eles, com seu bem-estar, isto aconteceu pela sua prpria imprudncia. Agindo em funo do seu egosmo, imaginam que esto sofrendo por erro 
alheio. Acham que no fizeram mal nenhum. E que Deus no faz mais que obrigao em alivi-los. Aliviados, esquecem-se completamente do ocorrido e voltam ser como 
eram antes.
        Outros, no entanto, ao se depararem com a presso maldosa dos desencarnados perturbadores, buscam o socorro. Sim,  certo buscar o socorro. Aliviados, param 
para pensar. Dois fatos lhes chamam a ateno. O mal-estar interior e o alvio. Compreendem que algo sutil, no visvel aos sentidos, age ora prejudicando ora auxiliando. 
Baseados nesta compreenso iniciam a sua mudana para melhor.
        Muitos trabalhadores encarnados de muitos Centros Espritas ao socorrer um encarnado necessitado so perseguidos por outras entidades malficas, que podem 
investir sobre eles. Mas em vez de se sentirem mrtires do Bem, benfeitores do semelhante, aproveitam as chicotadas para se aprimorar.
        Eu, quando um perturbador no me pressiona, sinto falta, pois a presso negativa que fazem leva-me a estar sempre vigilante com meus pensamentos e atitudes. 
Para no sofrer estados inferiores vou consolidando minhas atitudes no bom uso das coisas de Deus e da natureza. As dificuldades para uns so punio, para outros, 
oportunidades e estmulo para sua melhoria.
        Outra pergunta foi feita por uma moa.
        -Todo sofrimento  quitao do dbito do passado ou sofremos tambm por outro motivo?
        -Sofremos pelo dbito do passado, mas nem sempre;  incontestvel que o hoje  consequncia do ontem. Mas tambm o hoje  causa do amanh. Se hoje as circunstncias 
so adversas, se estou consciente que posso transform-las, estas adversidades ficam mais suaves. Oposio sempre teremos. Vamos lembrar do nosso gigante gnio espiritual 
Jesus de Nazar que nos disse: "Vinde a mim, todos os que vos achais carregados, eu vos aliviarei." (Mateus, XI:28-30) Para o homem insatisfeito com o que Deus lhe 
deu, toda dificuldade se torna um castigo, um martrio. J para o homem que procura compreender Deus, servi-lo, am-lo, todas as dificuldades so oportunidades que 
ele aproveita para superar-se.
        Vou dar um exemplo bem comum em nosso dia-a-dia. Uma pessoa suja  natural que se lave, se purifique. Para muitos o banho  sacrifcio. Muitos gostam de 
estar limpos, outros gostam de estar sujos. Para o indivduo que est acostumado com a limpeza, a sujeira  um castigo. Para outros, tanto faz, pois gostam da sujeira. 
Os que no gostam e esto sujos incomodam-se. Nossos erros, vcios, so como a sujeira. Para estar limpo  necessrio querer se limpar. Mas, s vezes, se quer estar 
limpo, mas no se quer deixar as causas que sujam. Esta luta para limpar-se muitas vezes traz sofrimentos.  como o alcolatra que gosta de beber mas no gosta de 
ressaca. Quer que lhe tire o mal-estar da ressaca, mas quer continuar bebendo.
        Assim so muitos que procuram a Casa Esprita e querem pelo passe eliminar o mal-estar da ressaca, dos seus erros, mas querem continuar no vcio. Este conflito 
 causa de muitos dos nossos sofrimentos.
        Aps, meu pai leu a Parbola dos Operrios da Vinha (Mateus, XX:1-16). E explicou:
        -A maioria de ns outros, em diversas fases da vida, atendemos ao convite Divino do nosso aperfeioamento espiritual. Em incio tido como trabalho. So crentes 
e como tais procuram exercitar preceitos e lei Divinos. Estas leis aprimoram a convivncia dos seres humanos no seu convvio do dia-a-dia. Aqueles que se voltam 
para este aperfeioamento nos dizeres das parbolas so os assalariados. Estes crentes da bondade, do amparo Divino, dedicam a sua existncia ao exerccio da fraternidade, 
solidariedade e Amor prescritos pela sua crena, como pontos fundamentais que propiciam a chegada de uma nova era, em que os homens deixam de se matar, de se explorar, 
de ser egostas. Trabalham intensamente este modo de viver, inspirando a promessa de Jesus em que haver um novo Cu e uma nova Terra.
        Jesus sempre usou o smbolo material para inocular nele um grande significado espiritual. A vinha simboliza o cosmo. O cosmo  a casa de Deus. Todos somos 
chamados a participar espontaneamente desta vida comunitria, no em termos estreitos e egostas mas em posio totalitria. Pois  fato que somos filhos deste cosmo 
e como tais devemos agir. Mas, enquanto a conscincia desta filiao no acontece no interior do indivduo, ns adiamos por mais ou menos um tempo a nossa participao 
consciente desta sinfonia universal.
        A, ento, se dividem como na parbola diversas pocas em que nos colocamos  disposio do Divino para viver e usufruir da sua vinha.
        Mas neste documento csmico que  esta parbola, vemos ainda entre aqueles que esto a servio do Senhor as diversidades de intenes. Todos os chamados, 
dentro do contexto da palavra, esto trabalhando, esto servindo ao Senhor. Mas a motivao difere entre uns e outros. Esta  a razo da queixa daquele que mais 
tempo esteve trabalhando. A personalidade egosta que s faz algum trabalho esperando um benefcio ou pagamento, ou uma posio de grandeza, mede o que tem a receber 
seja em pagamento ou benefcios pela extenso do esforo que ele desprendeu em proveito de seu Senhor. Pois este homem virtuoso ainda no se concebe como herdeiro 
Divino. Este Senhor ainda lhe  algo separado. Ainda no faz parte do seu crculo ntimo. Portanto, o pagamento que ele espera  de acordo com as privaes a que 
ele submete da ociosidade, sensaes e prazeres.
        A sua medida ainda est vinculada s comparaes que faz com seus semelhantes. Este homem ainda  escravo do tempo e do espao, do muito e do pouco, do dbito 
e do crdito. Este homem mesmo exercitando a virtude ainda no renasceu. Outros com a capacidade de compreenso maior j no trabalham, comparando ou esperando pagamento, 
seja este em forma de posses, prazeres ou de prmios. Nem em funo de posies espirituais.
        Eles sabem e se sentem filhos deste Senhor. Ora, se so filhos, tudo que  do Pai lhes pertence. Tudo que  deles sempre foi do Pai. Trabalham por prazer. 
Pois para que haja garantia de perfeio numa ao  necessrio que ela seja feita com satisfao.
        As atitudes destes so perenes, pois eles cuidam daquilo que lhes pertence. So os escolhidos.
        Vejam, na parbola, os que chegaram primeiro queriam receber mais que os outros; como j dissemos, eles esto no campo da quantidade de posio social. Os 
segundos no se importam com o pagamento. Tudo o que fazem  por amor, pois tm o prazer em trabalhar na vinha do pai, que  tambm deles.
        As duas classes de homens esto trabalhando na vinha, mas diferem uma da outra.  baseado nesta diferena que vem o pagamento do Senhor. Aos egostas Deus 
lhes concede como pagamento o sucesso no plano fsico e mental. Baseado em posses, posies, satisfaes fsicas e mentais.
        Aos desprendidos, Deus lhes concede a Paz, Amor, Alegria, Felicidades imperturbveis que no esto ligadas nem ao tempo, nem ao espao, nem ao pouco ou ao 
muito, mas sim a  um estado de ser. So os filhos queridos do Pai, dos quais Jesus tanto fala.
        Os que estavam na praa estavam esperando ser chamados para trabalhar. Os ociosos no se apresentaram na praa para o trabalho. Estes so aqueles que no 
se preocupam diante do ciclo evolutivo em devolver o talento que o homem possui em estado embrionrio. No foram mais admitidos, porque o crculo estava no seu final. 
Tero que recomear em outro local ou mundo.
        Vejam, o Nazareno h dois mil anos j nos fez o convite. Est em nossas mos trabalhar esperando o pagamento. Est em nossas mos construir aqui e agora 
um novo Cu e nova Terra. Basta que queiramos. Trabalhemos!

XXI
DOUTRINAO
        
        Aps a orao iniciou-se a doutrinao dos desencarnados. Apagaram as luzes para facilitar a concentrao, evitando distraes visuais, proporcionando assim 
as projees mentais que iriam agir com mais facilidade no mundo astral.
        Encarnada sempre gostei de prestar ateno nas doutrinaes aos desencarnados. Cada desencarnado tem sua histria e algumas bem interessantes. Agora, vendo 
a orientao, o socorro do lado de c, gostei mais ainda,  bem mais fascinante. Mas vendo tantos mutilados, muitos com sinais de torturas, fiquei um pouco apreensiva. 
Era um grupo que foi libertado do Umbral pelo trabalhadores do Centro, onde estavam presos como escravos. Alguns encontravam-se abobalhados, observei e senti d. 
Maurcio me disse baixinho:
        -Patrcia, nada  injusto. Colhemos o que plantamos. A reao  de conformidade com a ao. Pelo menos dois destes espritos devem falar pela incorporao 
um pouco de suas vidas. Ver que ignoravam os ensinamentos de Jesus. Viveram encarnados para o gozo, para a matria e prejudicando o prximo. Dois deles foram feiticeiros 
ou macumbeiros, fazendo mal a irmos por dinheiro. Usaram de desencarnados como empregados, estes os serviram, depois foi a vez de eles os servirem. Todos vo ser 
socorridos, curados e levados para recuperao ao hospital da Colnia.
        Muitos dos necessitados seriam incorporados, entre eles muitos no sabiam que desencarnaram. Normalmente, comparando seus estados, o desencarnado com o encarnado, 
compreendem que o corpo fsico morreu. Quando ns desencarnados chegamos perto de um encarnado, nota-se logo a diferena, a no ser que estejamos completamente iludidos 
e, no querendo aceitar a realidade, fingimos no perceber. Comparando-me com um encarnado, sinto-me leve, solta, o perisprito  um corpo muito mais delicado e 
sutil que o material.
        Maurcio, sabendo o que pensava, aproveitou para me esclarecer:
        -Em Centro Esprita onde o Bem  a meta, a incorporao  feita para ajudar. O desencarnado necessitado de auxlio recebe orientao e cura nestes trabalhos 
de caridade. A percepo de estar encarnado ou desencarnado  essencialmente mental. Como h o medo da morte, do desconhecido, o desencarnado mantm-se iludido de 
que ainda est na carne. Mas h desencarnados que conhecem seu estado e gostam de incorporar. So os que ainda no se realizaram espiritualmente. O corpo mental 
encontra o prazer nas necessidades fsicas. Estes so os que necessitam de uma orientao sria e honesta. Mas, enquanto no recebem, a maioria no quer nem receber 
ou mudar, incorporam em mdiuns invigilantes, sem estudos, que no frequentam lugares que seguem a orientao de Kardec. Porque incorporados sentem florescer instantaneamente 
todos os desejos mundanos. Em muitos casos, fazem at certos favores a encarnados.
        -Puxa! No pensei que existissem desencarnados que gostassem de se sentir no corpo carnal!
        -Os que idolatram a matria, e gostam somente do prazer, e no da dor que o corpo possa sentir, gostam de incorporar. Mas prestemos ateno agora, as doutrinaes 
comearam.
        Dois do grupo de escravos que tanto me impressionou foram os primeiros a receber ajuda pela incorporao. De fato, falaram um pouco de si. Fizeram maldades, 
tendo oportunidades no fizeram o Bem nem a outros e nem a si mesmos. Este Bem a si mesmo  que tiveram oportunidade de aprender, instruir-se moralmente e religiosamente 
e no o fizeram. Viveram encarnados sem se preocupar com a desencarnao. Sem pensar que fossem obrigados a colher do que plantaram. Todos do grupo tiveram os perispritos 
recuperados, curados, e ficaram numa outra fila para serem levados para a Colnia.
         Fiquei mais aliviada ao v-los j sem sofrimento, desejei de corao que se recuperassem espiritualmente. Que a dor tivesse conseguido ensin-los e que 
se voltassem realmente a Deus e se afastassem do mal.
        O senhor que se assustou comigo foi despertado e recebeu atravs dos mdiuns orientaes; preocupado com suas dores, esqueceu que me viu. Numa comparao 
com o encarnado, entendeu que desencarnara. Foram tambm socorridos muitos espritos que estavam com o perisprito lesado, necessitavam se harmonizar. Estes lesados 
eram os que se sentiam como encarnados com todas as suas doenas. A impresso  forte, o no entendimento da desencarnao faz que continuem doentes. Outros, o remorso 
destrutivo levou a lesar o perisprito. Como  imprudente a maioria dos encarnados! A morte do corpo no parece ser para eles, quando desencarnam e sofrem, desesperam-se, 
perturbam-se.
        O moo com quem conversei antes ficou na fila. No comeo parecia divertir-se, mas comportou-se educadamente. Depois, prestando ateno nas orientaes que 
outros desencarnados recebiam, comeou a chorar baixinho. Inteligente, entendeu que desencarnou. Loureno veio em sua ajuda, abraou-o e mimou-o como um nen. Nos 
braos de Loureno, ele recordou como desencarnou. Teve medo. Que seria dele? Loureno mostrou-lhe o lugar para onde iria, seria levado para a escola na Colnia. 
Tranquilizou-se e adormeceu. Loureno colocou-o na outra fila, no necessitaria de incorporao.
        Ainda bem, no pude deixar de pensar, no deve ser agradvel estar desencarnado e agir como encarnado. Infelizmente sei que com a maioria acontece isto. 
A desencarnao  natural e para todos. O corpo morre e a maioria sente-se perdida e perturbada. Pior ainda quando no fez boas aes,  terrvel quando se fez muitas 
ms. A desencarnao no pode ser muito diferente do modo de vida que tinha quando encarnado. Quem cultiva a matria a ela fica preso, quem entesourou bens espirituais 
 um bem-aventurado no Plano Espiritual. No se deve viver encarnado s pensando na morte, mas tambm no se deve ignor-la. No pensar na morte para si, e no entender 
que seja este fato to normal, acarreta muitas perturbaes, porque o perisprito  cpia exata do corpo, sente-se as mesmas necessidades at entend-las e super-las. 
Aquele moo achou ali, no Centro Esprita, o entendimento. Com os outros, seria levado  Colnia onde aprenderia a viver com desencarnado. O medo que teve foi do 
desconhecido. Que seria dele? Vem forte em muitos a idia do inferno. Ao entender que no  to complicado, o medo passa e vem a esperana.
        Um homem desencarnado, que estava na fila para receber orientao, me chamou ateno. Estava imvel, duro, sem se mover. Ao ser colocado perto de um mdium, 
recebeu de um dos trabalhadores desencarnados uma carga magntica e tambm sentiu o calor do corpo fsico. Sentia dores por todo o corpo, devagar, conseguiu mover 
alguns msculos. Alegrou-se por se mover, com ajuda do orientador encarnado conseguiu responder sua saudao.
        -Boa noite!...
        Vencendo as dificuldades, foi conseguindo falar. Quando encarnado foi orgulhoso, senhor de muitos bens, sua vontade era lei. Cometeu muitos erros. Gostava 
muito de si mesmo, de sua imagem, era forte e arrogante. Mandou fazer uma esttua sua. Realmente o artista a esculpiu muito bem. A esttua ficou linda. Foi colocada 
em uma praa para ele ser lembrado do benfeitor que foi. Porm, sempre h um porm, a morte veio destruir seus sonhos e iluses. Desencarnou por um infarto. No 
se conformou, queria estar encarnado. Inimigos o perseguiram por anos, aos poucos, foram abandonando-o. Mas o tempo passou e tudo mudou, sua casa, suas terras. S 
a esttua continuava l. E perto dela foi ficando, at que fez dela seu escudo, como se fosse seu corpo. Colou-se a ela. Sentiu seu corpo endurecer e no conseguiu 
mover-se mais e nem falar. S escutava e via o que estava  sua frente. Fazia sessenta anos que desencarnara.
        O orientador pediu para ele rogar perdo ao Pai e que fizesse um propsito de viver conforme as lies do Mestre Jesus. Ele o fez. Estava sendo sincero. 
A dor lhe cansou e no tinha mais nenhuma razo para ter orgulho.
        Foi caminhando, embora apoiado por um socorrista,  fila que iria para a Colnia. Tambm iria para um hospital. Chorava, suas lgrimas corriam abundantes 
fazendo-lhe bem.
        O orgulho e a arrogncia so duas chagas que acabam por sangrar, trazendo muitos sofrimentos.
        Com grandes proveitos encerraram-se as doutrinaes. Todos os socorridos foram conduzidos ao aerbus para serem transportados  Colnia. Este fato acontece 
na maioria dos Centros Espritas. Mas pode ser que socorridos sejam levados a Postos de Socorro e, em outros Centros, podem ficar em locais de amparo, socorro, pequenos 
hospitais nos Centros mesmo.
        Foi feita a Orao de Critas e de encerramento. Os trabalhadores desencarnados do local jogaram fluidos, energias benficas sobre os presentes. Maurcio 
novamente elucidou-me.
        -Os encarnados e mesmo grande parte dos desencarnados ainda no vivem a f, a fidelidade com Deus; porque, se tivessem a f, cada indivduo seria um plo 
dinmico de energias balsamizantes, harmoniosas e curativas. Mas, como ainda no chegamos l, ao final da reunio h uma unio mental entre os responsveis por este 
local. Consequentemente eles projetam energias mentais, plenas de luz, paz e afeto, saturando o ambiente e as pessoas de vitalidade. Esclareo que estas energias 
s permanecem quando sustentadas por quem as emite. Apesar de todo o ambiente estar assim saturado, s se beneficiam aqueles que atravs do sentimento afetivo sintonizam-se 
com estas vibraes de amor e afinidades espirituais.
        Estes fluidos, energias, so maravilhosos. Muitos desencarnados choraram emocionados. Parece uma chuva fininha colorida que cai do teto, iluminando suavemente 
o local, o aroma  agradvel. Concentrei-me e abri meu corao, quis receber. Por segundos senti-me molhada, senti a luz entrando nos meus poros,  uma alegria indescritvel.
        A reunio terminou, acenderam as luzes. Os encarnados conversaram amigavelmente, aproximei-me de minha me e a beijei, depois, papai. Saram todos, os encarnados 
apagaram as luzes e fecharam o local. Mas no ficou escuro no Plano Astral. O trabalho continuaria por muitas horas. Minutos aps, Maurcio me chamou para voltarmos 
 Colnia. Ainda no sabia volitar at a Colnia sozinha. Loureno nos acompanhou. Para sair da Colnia, os internos necessitam de autorizao. Os que j tm conhecimento 
e trabalham so chamados de moradores, estes tambm necessitam de autorizao. S transitam sem esta autorizao os que trabalham nos dois planos, na Crosta e na 
Colnia. Todas minhas vindas ao Plano Fsico eram com permisso, e s depois de muito tempo  que pude vir sozinha. As Colnias so lugares seguros, de paz, saturadas 
de energias edificantes. Entre os encarnados as energias so heterogneas e podem ser perigosas para alguns desencarnados que no esto preparados.
        Estava feliz. Queria aprender a ser til, sabia que no basta s vontade para servir, necessitava saber. Sempre amei o Centro Esprita, a Doutrina Esprita. 
Ter assistido a uma reunio proveitosa alegrou-me mais ainda. Olhando o firmamento com suas inmeras estrelas, agradeci a Deus. Tinha muito que agradecer, nada a 
pedir, mas roguei: "Pai, alimenta minha vontade de aprender e de ser til."
        Volitar  tremendamente agradvel...

XXII
HOSPITAL
        
        Visitei o Laboratrio onde nosso amigo Antnio trabalha (Antnio  um dos personagens do livro Reparando Erros, de Antnio Carlos.). Ele  um estudioso e 
pesquisador. O Laboratrio (assim o chama)  um lugar de estudos, grande e muito bonito, onde fazem remdios. So drogas que colocam em guas para tratamento a desencarnados 
e para os encarnados. O Laboratrio fica na parte dos fundos do Hospital da Colnia So Sebastio. Normalmente, todas as Colnias tm esta parte laboratorial. So 
seis estudiosos que trabalham l. Antnio tem o maior carinho e orgulho deste recanto. Recomendou-me ao entrar:
        -Menina Patrcia, preste ateno e no esbarre em nada.
        Mostrou-me tudo. Eles pesquisavam novas frmulas de remdios. No momento que os visitem, estavam empenhados pesquisando um tratamento mais eficaz para desintoxicar 
desencarnados viciados em txicos. Os viciados socorridos ficam na ala do hospital perto do Laboratrio.
        Antnio e seus colegas trabalham e estudam muito. Amam o que fazem. E muitos encarnados pensam que os desencarnados no trabalham, nem estudam, ou pesquisam. 
Como Deus  misericordioso no nos dando a ns, desencarnados, a ociosidade.
        -Antnio, - indaguei - este remdio s serve para os desencarnados se desintoxicarem?
        -Estamos pesquisando para este fim.  triste ver estes irmos sofrerem. Mas nada nos impede de estender tambm a ajuda a encarnados intoxicados.
        -E a, como fazem para que os encarnados tenham este tratamento?
        -Bem, sempre que descobrimos um remdio, uma nova frmula de tratamento, podemos pass-la a encarnados estudiosos e afins. Tambm socorristas que trabalham 
em ajuda a viciados podem administr-los a estes.
        Fiquei fascinada com este local de estudo e pesquisas.
        Conheci tambm o lar de Antnio Carlos, ou seu recanto, como o chama. Ele gentilmente me levou. Mora em outra Colnia to bonita e agradvel como a de So 
Sebastio. Alis, todas as Colnias so lindas! Ele mora com uma de suas filhas numa casa muito bonita. Recebeu-nos festivamente.
        -Papai no pra aqui - disse Neuzeli. - Diz que mora aqui, mas vem s a passeio.
        Sorrimos alegres.
        O recanto do Antnio Carlos  um quarto na casa que tem uma estante abarrotada de livros, uma escrivaninha, uma cadeira e um pequeno sof.
        -Aqui escrevo a maioria dos meus romances - explicou. -Venho aqui quase s para escrever.
        -Voc no escreve tambm na Casa do Escritor? (Casa do Escritor  uma pequena Colnia dedicada  Literatura construtiva.)
        -Sim, tenho l tambm uma sala que utilizo. Tenho muitos afazeres, graas a Deus.
        Antnio Carlos  uma pessoa estimadssima, alegre, instruda e simples. Foi um passeio agradabilssimo.
        Visitei Carlos  uma pessoa estimadssima, alegre, instruda e simples. Foi um passeio agradabilssimo.
        Visitei o hospital com Maurcio. Ele foi trabalhar e me levou. Hospital  sempre hospital. No  lugar de alegrias, tambm no  de tristezas, sim de esperanas. 
 grande, enorme. Os hospitais das Colnias so normalmente enormes. As Colnias grandes tm vrios hospitais repartidos em alguns dos seus ministrios. Nas Colnias 
mdias e menores, normalmente h um hospital, mas sempre grande. Os imprudentes so muitos. Nas Colnias seus governantes do muita ateno ao bem-estar,  sade 
espiritual de todos seus abrigados. Governantes? Sim, porque em todos os locais, at no Plano Espiritual, tem algum responsvel que orienta e administra para o 
melhor bem-estar de todos.
         sempre bom visitar um hospital, seja no plano material ou Espiritual. Passamos a entender melhor e ver com devido tamanho nossos problemas e despertar 
em ns a necessidade de fazer algo em favor dos que sofrem.
        Maurcio ama o hospital, hospitais so o lar dele.
        O Hospital de crianas est na parte do Educandrio e  muito bonito e simples. Tambm  grande. Nele ficam crianas e jovens em recuperao. Normalmente 
no trazem enraizadas doenas, e os reflexos deles so mais fracos. Logo esto bem.
        O hospital que visitei  para adultos. Conheci a parte destinada aos doentes em estado melhor. Maurcio me disse que tinha muito tempo para conhec-lo todo, 
o restante ficaria para mais tarde. O hospital  cercado por jardins e canteiros floridos, com bancos confortveis onde os internos em recuperao passeiam e conversam.
        -Maurcio, voc mora aqui?
        -No, tenho meu cantinho na Terra, no Posto de Socorro do Centro Esprita. Trabalho l e aqui.
        A frente do hospital  muito bonita, com grandes pilares.  pintado de branco e bege claro. (As Colnias e Postos de Socorro tm seus prdios pintados diferente 
do Plano Fsico. Aps serem plasmadas, as cores no desbotam ou envelhecem. Tudo continua novo, sustentado por aqueles que plasmaram. S mudam de cor se, por algum 
motivo, o querem. As Colnias tm seus prdios com cores claras, nem todos tm as mesmas cores, como tambm diferenciam por todo o Plano Espiritual.) Na entrada 
est a recepo. Ali  informado todo o andamento do hospital, desde onde se acham os trabalhadores e quem so os internos.
        O hospital tem muitas dependncias, ou partes, ou alas, ou pavilhes. As partes so chamadas aqui, nesta Colnia, de alas. Digo nesta Colnia, porque as 
designaes variam de loca. As alas repartidas so designadas por letras e nmeros. A, B, C. 1, 2, 3... Na ala direita nos fundos, esto as moradias de alguns de 
seus trabalhadores. As enfermarias so salas grandes com banheiros e bem ajeitadas, no so todas do mesmo tamanho, umas so maiores, outras menores. Existem enfermarias 
masculinas e femininas.
        Aps  a recepo, h o Salo da Orao ou Prece, onde internos oram independente da religio que tiveram quando encarnados. Neste Salo h somente cadeiras 
confortveis, suas paredes so brancas e sem adornos. Na frente h uma parte mais alta, onde, em certas horas do dia, orientadores fazem orao em voz alta. Muitos 
internos imaginam nesta parte mais alta, dez centmetros, altares, imagens, oratrios, etc., que gostam e onde costumavam orar. Neste Salo h uma quantidade muito 
grande de fluidos salutares, beneficiando os que oram. Na frente do Salo de Oraes, h uma pequena biblioteca que os internos livros doutrinrios, O Evangelho 
para os que querem ler.
        Infelizmente so muitos os que esto internos e o tempo de permanncia depende deles mesmos.
        Segui Maurcio que ia explicando o que tinha em cada ala. Entramos numa enfermaria. Estava em zunzunzum. Conversavam entre si. Quando entramos, todos se 
calaram e olharam amorosamente para ele. Com carinho e ateno, foi de leito em leito. Conversava, sorria, animava e esclarecia. Fiquei ao seu lado s observando. 
Quando samos da primeira enfermaria, indaguei.
        -Por que pararam de conversar com a sua chegada?
        -Talvez porque sabem que lhes dou ateno e carinho. Por que voc no tenta me ajudar?
        -Vou tentar. Maurcio, o hospital recebe muitas visitas?
        -O hospital recebe visitas de grupos de estudos e de pessoas como voc que querem conhecer e aprender. Os internos tambm so agradecidos pelas visitas. 
A maioria dos internos recebe visitas, em dias e horrios prprios, de amigos e parentes. Estas visitas lhes so muito agradveis.
        A enfermaria seguinte era feminina. Pus-me a ajudar, ajeitei-as no leito, indaguei como estavam. S de ter algum para falar de suas mgoas e queixas, sentem-se 
melhores. Fui com Maurcio a cinco enfermarias. Cansei. Pela primeira vez na Colnia senti-me cansada.
        -Patrcia, agora chega - disse Maurcio. - Por hoje me ajudou muito. Orgulho-me de voc. Logo estar descansada. Desprendemos muita energia ao lidar com 
necessitados. V para casa, alimente-se e faa exerccios para recuperar as energias.
        -Voc no se cansa?
        -No, tenho muitos anos de prtica e muitos conhecimentos a mais que voc. Ir aprender com o tempo. Voc, como j disse, me ajudou bastante.
        Sabia que Maurcio estava sendo gentil, mas fiquei contente. Ele acompanhou-me at a sada e voltou, ainda tinha muito o que fazer no hospital.
        Sempre que fazia algo de til, ficava alegre. Pensei: se papai souber, ficar contente e mame achar o mximo. Voltei devagar apreciando as ruas e as pessoas 
que por elas transitavam.  to bonito, agradvel andar pela Colnia! Cheguei em casa e j estava descansada e sentindo-me muito bem.
        No outro dia, iria a uma reunio da Escola onde trabalhava. Este trabalho me enchia de alegria. Falar aos amigos com quem trabalhava me dava segurana e 
contentamento.
        Estava curiosa para saber de que tratava a reunio.

XXIII
FRIAS
        
        A reunio foi na escola, na sala de palestra. Os professores estavam presentes no horrio marcado. D. Dirce presidiu a reunio, ela orienta somente a parte 
da escola que alfabetiza. Sempre to amvel, cumprimentou-nos sorrindo.
        -Boa tarde! Estamos no trmino do ano letivo e iremos, como todo ano, fazer uma festinha para os que terminaram o curso.
        Todos os cursos da Colnia tm tempo certo para terminar. A maioria segue o calendrio dos encarnados. Falando em calendrio, aqui temos horrio, dia, ano, 
tudo como os encarnados. As Colnias e Postos de Socorro seguem a marcao do tempo do espao fsico a que esto vinculados. Exemplo: numa Colnia na Europa, no 
espao da ustria, o horrio  igual ao da ustria, ou seja, a Colnia est no espao espiritual, a ustria no espao fsico. A Colnia So Sebastio segue o fuso 
horrio do Brasil, da cidade de So Sebastio do Paraso. Quando so duas horas na cidade fsica, so duas horas na Colnia. Aqui seguimos horrios, tem hora para 
tudo, e so obedecidos. Para ter ordem  necessrio disciplina. H horrios para turnos de trabalho, para estudo, etc.
        Os cursos comeam no incio do ano e normalmente terminam no final do ano. Raramente se faz num ano somente este curso de alfabetizao. Para os que querem 
somente ler e escrever, um ano de estudo basta. Normalmente, este curso  feito em trs anos, nos quais os alunos recebem conhecimentos equivalentes ao primeiro 
grau. Porm, h os que tm mais dificuldades para aprender e demoram mais tempo. Concluem o curso os que querem, mas s em casos especiais no terminam. Os que o 
concluem tm muitas opes, podem continuar a estudar ou dedicar-se a outras tarefas, contribuir com mais horas ou trabalho til. Todos os alunos trabalham. Trocamos 
idias sobre a melhor maneira de ensinar. E em rpidos comentrios foram programadas as festividades. D. Dirce, continuando a reunio, disse:
        -As frias se aproximam e vamos pensar no melhor modo de pass-las.
        Fiquei espantada e acho que demonstrei. Carinhosamente, D. Dirce explicou, dirigindo-se a mim, a novata do grupo.
        -Patrcia, voc  a primeira vez que colabora conosco, os outros esto h mais tempo aqui. Temos conhecimento de que voc no dever voltar no prximo ano, 
sentimos, mas sabemos que ir aprender em curso como  viver no Plano Espiritual. Agradecemos sua colaborao e esperamos que tenha gostado de trabalhar conosco. 
Temos frias, ou perodos de descanso. Todos os trabalhadores tm um perodo aps certo tempo de trabalho para descansar, ou cuidar de problemas pessoais. Enfim, 
para dedicar-se ao que quiser. Temos frias como os encarnados tm, mas nem tanto. Normalmente so frias de duas semanas, no mximo trs, ou poucos dias. Tanto 
os alunos como os professores desta escola tm frias no perodo do Natal. Para os alunos,  um perodo de descanso aps uma etapa de estudos. Tambm todos os anos 
h a festinha para os que concluram o curso. Ns, os professores, merecemos as frias, embora eu saiba que nenhum de ns fica sem fazer nada. Aproveitamos para 
visitar familiares encarnados e desencarnados, participamos de socorro extra a irmos que sofrem. So poucos dias, iniciaremos o trabalho na segunda semana de Janeiro.
        -No gostaria de ficar sem fazer nada, eu trabalho h to pouco tempo - falei.
        -Se voc, ao terminar as aulas, quiser trabalhar, pea orientao de amigos - D. Dirce aconselhou. -Porm, se quiser curtir as frias, ver como o Natal 
 lindo na Colnia. Mas o motivo tambm desta reunio  a avaliao dos alunos. Vocs vo avali-los conforme o aproveitamento de cada um, para que possamos separ-los 
em grupo para melhor aprendizagem.
        A reunio foi realizada com grande aproveitamento. Quando sa da escola fui conversar com Frederico e comentei:
        -Frederico, no pensei que desencarnados tivessem frias.
        -Nem todos tm, eu nunca as tive. No necessito, trabalhar faz parte de mim. Mesmo de licena como agora, procuro ser til. Mas todos os que trabalham tm 
direito a um descanso. Os orientadores das Colnias organizam os trabalhos para que todos tenham um perodo livre para descansar. Este perodo  livre para fazer 
ou pass-los como quiser, dentro das normas da Colnia. Muitos passam com os entes queridos encarnados ou desencarnados, vo visit-los e muitos os ajudam. Como 
tambm podem dedicar-se a outras tarefas, visitar outros locais. Para os novatos na Colnia, estas frias so importantes, principalmente aos jovens. Faz parte da 
adaptao.
        -No quero ficar sem fazer nada neste horrio. Mas no sei o que fazer, ou o que posso fazer.
        Frederico sorriu.
        - bom que aprenda a fazer muitas coisas, e a se dedicar no futuro pelo que possa ser mais til a voc e aos outros.
        Quase no dormia, tinha muito tempo. Pedi a Frederico:
        -No posso ajud-lo por mais tempo?
        -Sim, alegro-me por t-la ao meu lado.
        -Ser que posso ser realmente til?
        -Quando queremos, somos - respondeu-me animando.
        A escola amanheceu em festa no dia marcado para as festividades de encerramento. A entrega dos certificados foi  tarde. A alegria  sincera. O certificado 
no  um comprovante, o que interessa realmente  o que se aprendeu. Mas no deixa de ser uma conquista e os que receberam estavam felizes.
        Agradeci a meus colegas e a D. Dirce pelo carinho, ateno e ajuda que recebi neste pouco tempo que ali estive.
        Conversei muito com D. Dirce. Nossa orientadora disse que ia visitar familiares e, aps, unir-se a um grupo que ia trabalhar junto aos drogados.
        -Nas minhas frias - completou - fao sempre este trabalho. Aqueles que se perdem no vcio so os verdadeiros escravos, necessitados de liberdade. Gosto 
muito de colaborar neste socorro. Mas  ensinando que me realizo. Amo ensinar.
        -Tambm gosto - respondi - mas estou mais interessada em aprender. D. Dirce, eu sou muito grata  senhora. Obrigada por tudo.
        O coral infantil veio nos brindar com lindas canes infantis, natalinas e alguns salmos. Estavam todos vestidos iguaizinhos, de amarelo clarinho. So lindas, 
no h crianas feias, todas saudveis e felizes. Gostam de cantar, encantam quem as escuta. So to alegres que irradiam felicidade:
        Lcio, um dos meus alunos, aproximou-se de mim e me entregou um poema que tinha feito. O poema simples exaltava o mestre e a alegria de aprender. Agradeci 
comovida.
        -Patrcia, - disse ele - encarnado fui um doente mental, um excepcional. H tempo desencarnei, fui socorrido, aos poucos fui me recuperando e passei a trabalhar, 
a fazer pequenas tarefas. Orientadores insistiram para que estudasse, h pouco tempo interessei-me em aprender. Envergonhava-me das minhas dificuldades. Quando encarnado, 
escutava muito que era burro, sem inteligncia. Sofri muito, tive muitas dores, fui desprezado, passei fome, frio e fui muito doente. Desencarnei adulto. Aqui  
to diferente! Amo a Colnia! Sinto que no fui deficiente em outras existncias. Mas no quero recordar o passado, temo-o. Orientadores me disseram que sou como 
um fruto verde, no estou preparado, pronto para recordar o passado. Realmente, no quero. No querendo recordar nada, tenho que aprender novamente e agora fao 
com gosto.
        Lcio afastou-se, fiquei a pensar. D. Dirce, que se achava perto, vendo-me pensativa aproximou-se.
        -Por que est to pensativa?
        -Lcio me contou que encarnado foi um excepcional. Que sente que foi inteligente, mas no quer recordar o passado, prefere aprender de novo.
        -Patrcia, nenhum encarnado  excepcional sem motivos. E os motivos so vrios. Lcio, temendo o passado, no quer record-lo. So deficincias que devem 
ter origem pelo abuso de uma inteligncia brilhante. Aqui se tem o cuidado de no fazer da recordao do passado um sofrimento e um empecilho ao crescimento Espiritual. 
O passado passou, no se muda. Construmos o presente e o futuro. Se Lcio quisesse recordar, o departamento que ajuda muitos a faz-lo iria estudar seu caso, s 
o ajudaria a recordar se fosse para seu prprio bem. Muitos so imaturos para isto. Recordando seu passado, se fosse instrudo, lembraria e teria seus conhecimentos.
        -Mas ele tem dificuldades para aprender.
        -Ele ainda no conseguiu se livrar por completo de sua deficincia. Mas est aprendendo, no s instruindo como tambm as lies Evanglicas so fixadas 
em sua mente. Reeduca-se
        Meus alunos me presentearam com abraos, agradecimentos e com um buqu de flores. Fiquei emocionada. A festa foi linda!
        O Natal se aproximava. Natal sempre foi festa para mim, embora papai sempre nos alertasse que datas no representam nada e que o Natal passou, para a maioria, 
a ser uma festa material.
        Era a primeira vez que passava o Natal desencarnada e estava curiosa.

XXIV
NATAL
        
        Aproximava-se o Natal, sabia que minha famlia sentia falta, a saudade doa. Datas so guardadas para ter saudades. pocas de festas em que a famlia se 
rene so marcadas por lembranas e saudades. Recebia muitas oraes, recados e incentivos fortes para que fosse feliz. Era e sou. Pensava neste fato, quando Maurcio 
veio me visitar.
        -Maurcio - indaguei -, sou feliz. Mas os meus familiares sofrem de saudades.  justo? s vezes penso que no devo ser to feliz.
        Meu amigo riu.
        -Patrcia, voc  muito querida e amada. A saudade existe e existir, mas o tempo a suavizar. O que eles desejam a voc?
        -Que seja feliz!
        -Voc, sendo feliz, est fazendo a vontade deles. No  egosmo. Se faz o que eles pedem, eles acabaro fazendo o que voc lhes deseja. Que no sofram e 
que estejam bem. Muitos como voc parecem sentir uma pequena culpa por estar bem e os entes queridos no. Entretanto, no se pode pensar assim. Deve, sim, procurar 
estar cada vez melhor, aprender, saber, s assim se tornar apta a distribuir alegrias. S quem aprendeu a amar irradia Amor e Paz.
        O Natal na Colnia  lindo! Jovens e crianas organizam recitais, danas, palestras, encontros para conversar e ouvir msicas. Isto  para que ocupem o tempo 
e no sintam a saudade dos encarnados, distraem-se suavizando suas prprias lembranas.
        O grupo de jovens organizou visitas a outras Colnias e me convidou, aceitei contente. Iam apresentar uma pea de teatro e cantar. Jovens so animados. Fazem 
teatro como amadores, embora, s vezes, haja os que tm talento de artista. So peas bonitas, sadias, que sempre trazem ensinamentos profundos. Muitas das canes 
apresentadas so conhecidas dos encarnados, principalmente as natalinas. Outras lindssimas so de compositores do Plano Espiritual. Crianas e jovens tm seus corais 
e esto sempre se apresentando em festividades da Colnia e, quando convidados, vo a outras Colnias. Fazem muito sucesso, apresentam-se muito bem. A msica  uma 
grande terapia. Adultos tambm podem fazer parte de corais, grupo de msicos, como tambm fazem teatros.
        Fomos de aerbus bem devagar, foi uma viagem deliciosa. A Colnia vizinha, como todas,  muito bonita. Fomos recebidos com alegria. Aps a apresentao, 
ficamos a conversar, trocando idias. Gostei muito deste passeio.
        Na nossa Colnia, h uma praa grande, com canteiros em formato de coraes com flores azuis e brancas, flores midas de agradvel aroma. No centro da praa 
h um palco redondo, onde corais costumam apresentar-se. H muitos bancos confortveis e alguns de balano. Chama-se Praa da Consolao. Indaguei Frederico o porqu 
do nome.
        -Quando a Colnia foi planejada, esta praa foi feita para que pudessem seus habitantes reunir-se para recrear. Muitos desencarnados saudosos vinham para 
se consolar. Da o nome.
        Um grupo de jovens estrangeiros, da Itlia, veio nos visitar. Apresentaram-se na praa, nos presenteando com lindas canes em italiano. Foi um sucesso.
        -Pensei - disse a Lenita - que iria entender tudo que cantassem.
        -Entender pelo pensamento  para espritos que sabem. Os que se afinam perfeitamente entre si conseguem transmitir pensamentos. Com a mente fazemos muito, 
mas necessitamos saber. O pensamento tem uma s forma. So poucos os desencarnados que sabem usar desta comunicao. A maioria tem que conhecer o idioma. Todas as 
Colnias tm curso de Esperanto na tentativa de melhor comunicao entre ns.
        -Quero aprender tanto o Esperanto, para transmisso de pensamento. Vou marcar na minha lista.
        Rimos felizes. Minha lista j estava enorme. Tenho um caderninho em que marco tudo que quero aprender e os cursos que quero fazer. Muitos j fiz, outros 
farei com a permisso do nosso Pai Maior. O Esperanto  bastante divulgado no Plano Espiritual, todas as escolas tm curso, como tambm h muitos livros e intercmbio 
deste idioma entre as Colnias por toda a Terra.
        Os organizadores da Colnia planejam longa programao nesta poca do Natal. Na praa todos os dias h apresentaes de peas teatrais, corais, msicos, 
tudo muito alegre. O Educandrio fica todo enfeitado, fazem prespios, enfeitam rvores com luzes e bolas coloridas, lembrando enfeites dos encarnados. Tudo  feito 
para alegrar as crianas. Trabalhadores vestem-se de palhao, h jogos, danas e a crianada se diverte.
        No h trocas de presentes, mas votos sinceros de harmonia e paz.
        Cada ano, na poca de Natal, h um ensinamento como objetivo. Neste ano foi: "A importncia de Jesus ter encarnado na Terra". H algumas faixas com estes 
dizeres pela Colnia, como tambm dizeres saudando seus moradores e hspedes. Por toda a Colnia h palestras sobre o tema deste Natal.  muito bonito, educativo 
e emocionante.
        J pensou se Jesus no tivesse encarnado entre ns?
        Fui muitas vezes ao Educandrio com Lenita e l nos encontrvamos com Ana. O Educandrio  grande e nesta poca fica mais bonito ainda. Seus parques ficam 
enfeitados, procuram seus orientadores organizar muitos lazeres e distraes, quase todos ao ar livre. Conversvamos muito, reunamo-nos em grupos, trocando idias 
sobre as palestras ouvidas. Quando Lenita via algum jovem triste, isolado, ia at ele e me arrastava junto. Aproximvamo-nos alegres e nos apresentvamos. Ela tem 
uma conversa agradvel, logo o jovem se entusiasmava e o levvamos para uma turma.
        A Colnia fica nesta poca muito movimentada. Encontrei com muitos conhecidos e a conversa rolou...
        Vi meus familiares vrias vezes pela televiso.
        O Natal passou em festa, embora os trabalhadores se descobrissem em trabalho como em todas as pocas de festas de encarnados, nas quais h muitos abusos. 
A passagem do ano aqui  mais simples. A maioria faz votos de renovao. Com alegria cumprimentam-se desejando alegrias e esperana. Logo aps 1o de Janeiro, tudo 
que recorda o Natal  retirado e tudo volta ao normal.
        Meu primeiro Natal no Plano Espiritual foi de muita alegria. Como pode algum sentir tristeza comemorando um nascimento como o de Jesus, sabendo da enorme 
importncia que seus ensinamentos tm para ns todos?

XXV
SENTINDO AS DIFICULDADES
        
        Visitei, com Maurcio, meus pais. Ao chegar em casa, assustei-me. Al lado de minha me estava um esprito perturbado na maldade. Feio, sujo, com cabelos 
e barba crescidos, olhos verdes grandes e olhar cnico. Tentava incutir na minha me a idia que eu sofria. Falava rindo, olhando-a fixamente.
        -Patrcia sofre no Umbral. Est infeliz sua filha. Chora chamando por voc. Que lhe valeu ser boa, ser esprita? Isto no impediu que ela morresse. Ela sofre!
        -Ora, - falei indignada - que maldoso!
        Achei que Maurcio fosse retir-lo, porm meu amigo no fez nada. Olhei suplicando sem nada pedir.
        -Patrcia, ns desencarnados no podemos fazer o que compete aos encarnados, mesmo amando-os demais. Sua me sabe lidar com estes irmos infelizes. Ele lhe 
fala, mas escuta tambm. Ela pode responder e orient-lo ou simplesmente no lhe dar ateno.
        -No posso ajud-la?
        -Voc sabe?
        Senti-me impotente e desejei mais que nunca aprender. Pensei por segundos, s sabia neutralizar foras nocivas com oraes. Era o bastante. Concentrei-me 
e orei com f para este irmo. Ele inquietou-se e saiu rpido da nossa casa. Aproximei-me de mame, falei a ela:
        -Mame, sou feliz! No d ateno a aqueles que a querem perturbar. Amo-a!
        Mame sentiu-se bem e foi com alvio que escutei seu pensamento. "Patrcia est feliz! No vou mais pensar o contrrio".
        -Ele voltar? - indaguei a Maurcio.
        -Acho que sim. Se voltar, sua me  livre para escut-lo ou no. Confiemos no seu bom senso.
        Fomos ver meu sobrinho. Ele estava adoentado, no dormira  noite, sentia os fluidos nocivos de encarnados e desencarnados. Como criana  sensvel, sentia 
muito. Por momentos, fiquei triste.
        -Patrcia, tristeza no ajuda - Maurcio me orientou. - Ore por ele, e lhe d um passe, disperse estar energias negativas.
        -Coitado, to pequeno e sofre! Sinto-me impotente para ajud-lo.
        -No pode sofrer no lugar deles. Cada um tem a lio para fazer que compete ao seu aprendizado.  por isso que nem todos desencarnados conseguem autorizao 
para visitar encarnados queridos. Necessitam para estas visitas estar aptos, conscientes dos problemas que podero encontrar. Ver entes queridos sofrendo no  fcil, 
principalmente sabendo que nem sempre  possvel ajud-los.
        Dias depois, meus pais foram visitar minha tia. Maurcio e eu fomos v-los. Meu pai estava recebendo muitos ataques das trevas e, com ele, todos de casa. 
Mais que nunca esta frase veio  minha mente, como certa: "Onde h luz, as trevas tentam apag-la".
        Minha priminha sensitiva estava preocupando a famlia. Nenhum esprito estava perto dela, irmos perturbados no entravam na casa de minha tia. Mas eles 
podem agir de longe e estavam fazendo. Concentravam-se nela e faziam parecer que estava obsedada. Ela estava chorona e irritada. Faziam com que ela tivesse hbitos 
que eu tinha quando encarnada. Queriam que pensassem que era eu que a obsedava. Meu pai concentrou-se, orou, deu passes nela destruindo o vnculo que a ligava a 
estes irmos nas trevas do erro. Ela voltou ao normal.
        Fiquei preocupada. Maurcio me esclareceu:
        -Patrcia, estes irmos necessitam de orientao e vamos doutrin-los nas reunies de desobsesso.
        -Mas, enquanto isto, iro perturbar.
        -Os encarnados sabem se defender. No viu seu pai orar e desintegrar pela fora mental o que eles construram? Ainda teremos estes irmos como amigos.
        Vendo-me um pouco decepcionada e indignada, Maurcio continuou esclarecendo-me.
        -Emmanuel disse sabiamente em um de seus, ditado ao Chico Xavier: "Ningum socorre um nufrago sem sofrer o chicote das ondas". A luz sustentada na f e 
na sapincia se fortalece com ataques contra.  com seus sopros que a engrandece. Um perturbador pode nos induzir ao mal. Neste ambiente hostil, o encarnado pode 
ceder e agir em oposio s leis divinas. O esprito perturbador pode nos fazer mal, sofremos com seu assdio. Presena esta que pode nos atingir at o corpo fsico, 
mas em momento algum ele pode nos tornar maus.  neste ambiente hostil que o servo bom e fiel fortifica e consolida a sua vivncia para Deus. Por isto, se impedirmos 
que um ente querido seja testado quando ele aqui estiver, pode acontecer que se sinta frustrado pois no tem certeza se, passando novamente pela mesma situao, 
ter foras para super-la. Porque, Patrcia, h uma grande iluso em muitos crentes quando esperam um cu sem problemas. Oposio e composio fazem parte da atividade 
da criao Divina. Dialogando sobre este ponto, me vem  lembrana o chamamento do grande mestre: "Vinde a mim todos os que andais em sofrimento e vos achais carregados, 
eu vos aliviarei. Tomai sobre vs o meu jugo, e aprendei de mim, que sou manso e humilde de corao, e achareis descanso para vossas almas. Porque o meu jugo  suave, 
e o meu fardo  leve." (Mateus, XI:28-30)
        Meu amigo fez uma ligeira pausa e continuou a me elucidar.
        -Veja bem, Ele no nos induz a pensar que nos ir proporcionar uma vida ociosa, mas, sim, que aprenderemos com Ele que as dificuldades que porventura venhamos 
a passar no devem ser vistas como castigo, mas sim como situaes que nos pem  prova. Se vencidas, provamos o sabor da vitria sobre nossas inferioridades, se 
sucumbirmos, provamos o fel da derrota moral. Veja bem, o seu caso: nasceu numa famlia igual a milhares de outras. Veio ao mundo fsico, partiu e no deixou marcas. 
Voc, ao ler e ouvir orientaes sobre o aprimoramento da personalidade, acordou para o desenvolvimento do potencial humano de ser bom conscientemente, por livre 
e espontnea vontade. Voc sente, saber com detalhes no futuro, que teria um final de vida no corpo fsico mais ou menos difcil. No entanto, com seu constante 
exerccio na atitude do Bem quitou suas dvidas passadas, desencarnou tranquilamente. Na verdade, nem viu esta passagem, quando acordou estava entre amigos.
        Maurcio silenciou e fiquei a pensar. Meu amigo tinha razo, agradeci com um sorriso sua preciosa lio.
        Voltamos  Colnia, pensei bem em tudo que vi e ouvi de Maurcio. S ento entendi o porqu de muitos internos na Colnia no terem autorizao para ver 
seus familiares. Ao v-los felizes, nos alegramos. Ao v-los em dificuldades, temos que ser fortes, porque, s vezes, s nos resta chorar junto.
        Sei de muitos casos tristes que ocorreram com internos da Colnia ao visitar familiares. Porque no  fcil para uma me ver seus filhos pequenos rfos, 
s vezes jogados na rua ou com madrasta a lhes judiar. Ou para um pai ver seus filhos brigarem pela fortuna, ou um filho roubando o outro. E a filha ou o filho verem 
os pais maldizerem a Deus pelo seu desencarne. No  fcil saber aqui, desencarnado, de traies e que entes queridos se afundam no vcio. Necessitam os desencarnados 
estar preparados, firmes no conhecimento para superar estes fatos. Porque, no estando aptos, podem se desesperar. Mesmo para os que aprenderam a amar todos como 
irmos, os que pelo estudo e trabalho se tornam moradores na Colnia, servos do Pai, sentem os sofrimentos daqueles a quem amam. S os que sabem entendem que tudo 
tem razo de ser, que mesmo os amando no podem interferir no livre-arbtrio deles, e que a colheita pertence a cada um.
        Nestes momentos solidrios com o sofrimento de entes queridos, me vem  memria o aparente desabafo do gigante e genial Nazareno, na sua clebre frase: " 
gerao infiel e perversa! At quando estarei convosco e vos sofrerei"? (Lucas, IX:41)
        Eu, tantas vezes desejei ardentemente nestes anos ajud-los, sofrer no lugar deles. Mas no se pode fazer a lio do outro. Aquele que faz a lio que cabe 
a outro, impede-o de aprender. No meu entendimento se comete uma grande falta de caridade privar algum de aprender. Assim, sempre que os sinto com problemas, oro, 
mando fluidos de coragem, incentivando-os a aproveitar do melhor modo o aprendizado. As dificuldades vencidas nos impulsionam ao progresso, Problemas resolvidos, 
lies aprendidas.

XXVI
TRABALHANDO COM FREDERICO
        
        Estava orgulhosa por receber meus bnus-horas. Todos os trabalhadores tm perodo de descanso, mas os que querem trabalhar neste perodo ganham dobrado. 
No estava necessitando de descanso. Entusiasmada passei a trabalhar muitas horas com Frederico.
        Quando trabalhava muito, sentia-me cansada, mas logo me refazia.
        Meu amigo tem uma sala na parte do hospital onde esto os internos melhores. Para que vocs entendam: ele fazia um trabalho de psiclogo ou de psiquiatra. 
Continuava como uma secretria a organizar horrios, fichas e encaminhando os pacientes. Enquanto eles conversavam com Frederico, ficava sem fazer nada.
        -Patrcia, - Frederico me convidou - voc no quer entrar na sala e ficar a ouvir, a fim de aprender o que traz estes nossos irmos a conversar comigo?
        -Sim - respondi contente.
        Percebi ento os muitos problemas que tem a maioria desencarnada em tratamento. Escutava sem nada dizer, s vezes me dava vontade de rir, outras me emocionava. 
Como dizia vov, nada como ajudar para compreender. Vendo, sentindo problemas dos outros, dei graas ao Pai por no t-los, por no t-los criado para mim.
        A maioria dos problemas dos daqui so os que ficaram a, ou seja, relaconados com os encarnados. Pediam para visitar os familiares ou ajud-los. S que no 
se consegue auxiliar, encontrando-se ainda entre os necessitados de ajuda.
        Quase todos falavam de sua vida encarnada e como desencarnaram. Frederico escutava atencioso indagando de vez em quando. Uns reclamavam do choro dos familiares 
que os incomodava. Outros pediam orientaes de como fazer para no escutar os lamentos e chamados dos entes queridos.
        -Deve-se orar por eles - falava calmamente Frederico -, ter pacincia, o tempo passa, suavizando.
        Meu amigo respondia a todos, orientando-os com sabedoria. Tambm anotava os endereos dos casos mais aflitivos. Quando finalizava o horrio de atendimento, 
Frederico ia s residncias anotadas, tentava orientar, ajudar os encarnados, motivando-os a se consolar e deixar de perturbar seus entes queridos.
        Mas havia queixas diferentes. Uns julgavam-se esquecidos, principalmente pelo cnjuges. Foram alguns pedidos para voltar, e at no corpo fsico. No queriam 
reencarnar, nascer num outro corpo. Queriam o deles mesmo. Um at pediu para voltar uns dez anos mais moo.
        s vezes, pensava que Frederico no iria sair daquela. Mas ele, como grande conhecedor do esprito humano, falava educadamente, com tranquilidade, convencendo 
os entendidos. Alguns no gostavam das respostas, mas acabavam convencidos. Muitos voltavam muitas vezes, at superar seus problemas ou parte deles. Porque infelizmente 
muitos se fixavam tanto nos seus problemas que no viam mais nada, e outros gostavam de t-los, necessitando de maior tratamento.
        Narro alguns casos, no por curiosidade mas para que sirvam de lio a todos ns.
        -Veja bem, Dr. Frederico - disse um senhor. -Ver com o que lhe digo, o senhor me dar razo. Sempre fui muito trabalhador, tive posses. Honesto, nem sempre. 
No posso mentir, sei que no iria engan-lo. S tapiei alguns trouxas nos negcios. Minha primeira esposa me ajudou muito, no tivemos filhos, ela desencarnou e 
casei com outra. Minha segunda esposa  linda, tivemos filhos. A danada me traiu e, quando descobri, fui matar o safado e foi ele quem me matou. Quero voltar e tirar 
os filhos dela. No quero vingana. Sofri muito querendo vingar, j perdoei os dois. Meus filhos iro se perder com ela, iro errar, tenho a certeza. No quero ir 
como desencarnado, eles no me vero. No d para o senhor fazer com que eu volte?
        Frederico, bondosamente, tentou esclarec-lo.
        -Meu irmo, quando encarnado, voc viu algum desencarnado voltar com o corpo morto? O seu corpo aps tanto tempo j  p. Isto  impossvel! Lembro-o que 
todos tm como encarnados oportunidades de seguir o Bem. Seus filhos no esto desamparados por Deus. Voc pode ajud-los.
        -Mas eles no me daro crdito. No iro me dar ateno.
        -No desanime sem tentar. O senhor j leu a Parbola de Lzaro e o rico?
        -J, a do Lzaro pobre e do rico que morreu e quis voltar para avisar seus irmos e no pde.
        -Leia novamente com ateno.
        -O senhor no pode me ajudar?
        -Posso. Irei, por voc, tentar ajudar seus familiares.
        -Queria mesmo voltar encarnado e tirar meus filhos dela e educ-los melhor.
        -Meu irmo, voc j reencarnou muitas vezes. Se voltasse recordando talvez tentasse mudar. Mas esquecendo, erraria de novo. Por que no se fortalece nos 
ensinos da boa moral?
        O senhor saiu no muito satisfeito.
        -Frederico - falei - parece incrvel escutar este pedido. Pensei que desencarnados tivessem mais conscincia.
        -Deveriam ter, mas desencarnados no diferem muito dos encarnados. No se torna melhor pelo desencarne. Torna-se melhor quando se aprende. Este senhor no 
se preocupou quando encarnado em educar os filhos, agora  sincero, se preocupa com eles, mas tardiamente. Parece com o rico da parbola que recomendei que lesse 
com ateno.
        -E fez um pedido mais incrvel ainda, voltar com seu corpo.
        -Embora saibam ser impossvel, tentam. Se isto fosse possvel seriam muitos a voltar.
        -Ainda bem que no .
        Frederico foi ao lar terreno dele e fez o possvel para cham-los  responsabilidade. No dia seguinte, tranquilizou este senhor. Disse que a esposa estava 
sendo boa me, pelo menos, amava os filhos. Ele resolveu seguir os conselhos de Frederico. Melhorar, aprender para poder no futuro tentar ajudar os filhos.
        Uma mulher, com expresso sofrida que dava d, disse lacrimosa:
        -Dr. Frederico, no quero parecer ingrata. Desencarnei, sofri muito, vaguei pelo Umbral, fui socorrida e me sinto melhor. Porm...  que no gosto do Umbral, 
tenho horror a ele, no quero vagar e... No quero ficar aqui. No gosto daqui. Tratam-me bem, mas recebo um tratamento igual a todos. No posso comer carnes, no 
posso tomar meus aperitivos. Detesto estar desencarnada! Queria morrer mesmo. A morte no  como esperava. Se pelo menos tivesse o cu.
        -Ser que, se tivesse o cu como pensava, a senhora iria estar nele?
        A senhora no respondeu. Estranhei, era a primeira pessoa que ouvia diretamente dizer que no gostava da Colnia. Frederico continuou:
        -A senhora est insatisfeita consigo mesma. O que a Colnia pode lhe oferecer  isto que recebe. Enquanto muitos so felizes aqui, h os descontentes como 
a senhora. Que quer realmente?
        -No sei. No queria ter desencarnado, mas tambm no gostava da minha vida encarnada. Talvez se reencarnasse rica, linda e inteligente.
        -Para fazer o qu?
        -Ser feliz, gozar a vida.
        -Por quanto tempo?
        -Se soubesse no estaria aqui - disse sem pacincia.
        -Minha irm, j tentou ser feliz trabalhando, sendo til?
        -No.
        -J experimentou sentir alegria em ajudar o prximo? A senhora necessita se amar para aprender amar o prximo. Deixar de ser uma necessitada e ser til. 
Aqui na sua ficha est anotado que est bem. Por que no se dispe ajudar?
        -Acho to difcil...
        -Amanh voltar para conversamos melhor. Tente hoje ser til por duas vezes.
        A senhora saiu como entrou, lacrimosa.
        -Frederico - indaguei - ela queixa-se de estar na enfermaria. Por que tive um quarto s para mim?
        -Patrcia, Jesus recomendou-nos que vivssemos encarnados entesourando bens espirituais, dando valor na parte verdadeira, a que nos acompanha aps a morte 
do corpo. Todos que fizeram o que Jesus recomendou acham no merecer este simples tratamento que  ser alojado por um curto perodo num quarto individual. Para estar, 
estar aqui  venturoso. Alguns imprudentes, orgulhosos, no gostam de se misturar, esquecem que so irmos de todos e que o Pai  um s. Chegam aqui tais como mendigos 
e alguns a exigir regalias que no fizeram por merecer.
        Aos poucos esta senhora foi mudando, Frederico tudo fazia para que entendesse que s o Bem a faria feliz. Ela comeou a fazer pequenas tarefas, mas resmungando. 
Frederico me disse que os orientadores da Colnia iam tentar ajud-la para que vencesse a ociosidade ou ela teria que reencarnar. A Colnia no abriga ociosos.
        Um senhor, aparentando trinta e cinco anos, entrou na sala um tanto envergonhado.
        -O doutor me ajudaria? Gosto daqui, quero ficar, mas sinto falta de sexo.
        -Voc gosta daqui porque solucionou um dos pesos que aflige o ser humano, que  a disputa da sobrevivncia. Aqui recebe muito, at os reflexos de sua doena 
esto sendo superados. Est abrigado, alimenta-se, no sente frio ou calor, enfim est acomodado. Mas, ao mesmo tempo, voc anseia pelas satisfaes que o mundo 
fsico lhe proporcionava. Sente falta somente dos que julgava bons, dos prazeres. Vou ajud-lo. Para voc no ser atingido por estes ecos de satisfaes do mundo 
fsico de qualquer circunstncia,  necessrio que eleja com toda sua fora e ateno um objetivo aqui no mundo Espiritual que agora vive, e que a ele se dedique 
com toda sua alma. Neste sentido, as energias que hoje lhe trazem um eco do passado se dirigiro para este novo objetivo. Aconselho-o a ser til, a trabalhar, a 
estudar, a interessar-se em fazer o Bem a tantos irmos daqui mesmo, aos alojados na outra parte do hospital, que sofrem. Assim estar liberto parcialmente dos ecos 
das satisfaes do mundo fsico, no seu caso, do desejo sexual.
        J havia escutado uma mulher queixar-se do mesmo assunto e Frederico ter-lhe dito que se voltasse com carinho a uma atividade, trabalho ou estudo, que estaria 
parcialmente liberta destes desejos. Este senhor era o ltimo atendimento do dia. Tendo tempo, indaguei a Frederico, querendo aprender:
        -Por que parcialmente e no plenamente, se aqui na realidade no se tem necessidade destas funes?
        -O apego ou escravido a qualquer uma das funes, gula, sexo, mentir, muito falar; os vcios, tanto aparentemente inofensivos como os prejudiciais na viso 
da sociedade, fazem parte da busca incessante do homem em preencher seu vazio fsico.
        O Homem  a soma de todas as experincias pelas quais a humanidade vem crescendo atravs dos incontveis milnios de que temos notcias. O primeiro sentido 
a se manifestar foi o tato e atravs dele  que o homem teve seus primeiros prazeres. O segundo, o grande, da sobrevivncia, alimentar e procriar. Mas, falando especificamente 
da procriao, porque as outras esto no mesmo plano. Este  o maior dilema do homem, porque condenam o sexo promscuo, mas no ensinam ou explicam por que o homem 
tem. Se ele  mau por que o possui? Se ele  bom, por que o reprimir? A chave da questo est na sua fonte. Se voc pegar um rio e no meio do seu curso erguer um 
dique, voc quer que as guas no corram mais naquele leito, seu trabalho ser constante, ter que forar o dique todos os dias. Elas ficaro represadas a cada dia 
com mais fora e poder de presso. Se descuidar, romper o dique e sua ao devastadora ser mil vezes maior do que quando estavam no seu curso normal. Da mesma 
forma  esta fabulosa energia vital. No seu primeiro impulso ela seduz o homem com prazer para garantir a perpetuao da espcie humana. O homem ento se torna escravo 
desta energia. Um mero reprodutor da espcie. Mas como a prole pesa aos ombros dos seus genitores, a sagacidade da inteligncia, no querendo abster-se do prazer. 
Outros homens por devoo ou crena abstm-se do uso desta energia. Pode acontecer de em futuro prximo arrebentar e produzir mais estrago ou adormecer a energia 
secando este leito com prejuzo dele mesmo.
        Alguns poucos, em vez de fazer dique ou amortecer esta energia, remontam  fonte vital. Procuram saber de onde nasce esta energia que  capaz de fazer nascer 
o ser vivente e inteligente. Reconhecendo que ela nasce do prprio eterno, desviam-na do leito do prazer mundano que proporciona a perpetuao da espcie, dirigem-na 
para a espiritualizao do indivduo, proporcionando, assim, a perpetuao da alma. A libertao no se faz pela repreenso, mas sim pela compreenso do que o homem 
. Baseado nisto, usa-se toda a energia que o sustenta no sentido de possibilitar que se renasa o novo homem como cidado csmico. No mais interessado nos prazeres 
egostas, mas sim na glria da manifestao de Deus no homem e todos seus filhos.
        No poderia, Patrcia, falar isto que lhe falo quele senhor, ele no entenderia. Est ainda escravo de vcios, se ele tiver um objetivo maior, ficar liberto 
parcialmente, s esto libertos plenamente os que fizeram como exemplifiquei. Ele no entenderia, como assim poucos compreendem o que Paulo de Tarso disse: "A natureza 
sofre e geme dores de parto at que nasa o filho do homem".
        Depois de alguns dias trabalhando com Frederico, em que aprendi muito, indaguei se ele gostava do que estava fazendo.
        -H tempo, Patrcia, estudo o comportamento do ser humano em todas suas faces. No h trabalho que no goste. Sou feliz em ajudar.
        Tantos fatos diferentes vi nestes poucos meses de desencarnada. O que ser que os encarnados pensaro ao ler tudo que narro? Iro rir? Pasmaro? Vo descrer? 
S desencarnando para conferirem.

XXVII
PREPARANDO PARA ESTUDAR
        
        Cada vez mais ansiava por aprender e ser til. Dormia poucas horas como tambm me alimentava pouqussimo, aprendi a absorver a alimentao da atmosfera e 
tomava pouca gua. Dias antes do Natal, conclu o curso de como me alimentar, foi muito proveitoso. A gua aqui  diferente, magnetizada, sinto-a perfumada. Sempre 
gostei muito de tomar banho, no curso aprendi a plasmar limpeza tanto do corpo como das roupas que usava, a limpar-me, higienizar-me pela mente. No comer d uma 
enorme vantagem. No necessita usar o banheiro. No tomar gua em excesso, no urinar. Isto  bom. Comeara a viver espiritualmente, as impresses do corpo de carne 
e as necessidades iam sendo superadas.
        Logo ia comear meu curso e foi com muita alegria que escutei de Frederico:
        -Patrcia, vou ser um dos instrutores do curso que ir fazer.
        -Ir deixar este trabalho maravilhoso? Ir por mim?
        -Amo todas as formas de ser til. Este trabalho  temporrio. Depois do curso, voltarei a dar aulas numa Colnia de Estudo. H tempos queria participar deste 
curso,  bom recordar e renovar conhecimentos.
        -Frederico, sou grata a voc. Gostei muito de trabalhar com voc e com meu trabalho na escola. Penso em voltar a faz-los.
        Frederico riu.
        -Patrcia,  bom gostar de muitos trabalhos. Conhecer muitas formas de ser til. Quando terminar seu estudo, poder optar para o que for melhor a si mesma 
e para o maior nmero de pessoas.
        Maurcio me deu algumas dicas sobre o curso.
        -Patrcia, ir morar temporariamente no setor residencial da escola, na parte destinada a estudantes que cursam este interessante aprendizado. O curso que 
far  para que tenha conhecimentos do Plano Espiritual. Este curso tem como objetivo instruir os desencarnados sobre como viver espiritualmente e conhecer tudo, 
as Colnias, Postos de Socorro, Umbral, ver os trabalhos espirituais junto a encarnados, etc. Para os que no tm conhecimento algum, o perodo deste curso  mais 
intenso. Para os que tm conhecimento como voc, o prazo  menor. Tudo  bem organizado. H data certa para o incio e trmino. O seu demorar nove meses. O grupo 
 pequeno, tero trs instrutores.
        -Todos os desencarnados fazem este curso?
        -Deveriam ou seria o ideal. Infelizmente, a porcentagem dos que querem aprender  pequena. Depois, para fazer este curso, necessitam estar adaptados, conscientes 
do seu estado de desencarnados, querer aprender para serem teis e, o principal, gostar. Amar o Plano Espiritual
        -Quem ir fazer o curso comigo?
        -A equipe  tima, gostar de todos. Voc  a mais novata desencarnada. Os outros tm anos por aqui. Alguns so protetores de encarnados ou querem ser, aprendem 
para melhor orientar. Outros h tempo trabalham na Colnia, agora se interessam em conhecer todo o Mundo Espiritual.
        -Maurcio, existe s esta forma de conhecer o Plano Espiritual?
        -No, este curso  o modo mais fcil e mais organizado. Muitos trabalhadores o conhecem servindo e socorrendo. Embora, Patrcia, no ir ficar s vendo, 
aprender participando e ajudando.
        Meu quarto seria ocupado por outra pessoa, ali estivera por curso perodo, sabia que um dia teria que deix-lo. No senti tristeza, agradeci de corao s 
senhoras amigas de vov pela carinhosa acolhida. Minhas violetas ficariam com vov, at terminar meu curso, depois as levaria para uma Colnia Escola para onde iria. 
Estavam lindas e floridas minhas violetas, olhando-as motivava-me mais ainda em aprender, continuar a ser feliz. Levamo-las para o quarto de vov. Colocamo-las no 
peitoril da janela de seu quarto. Teria pequenas folgas durante o curso e viria visitar vov e minhas violetas. Arrumei alguns pertences para lev-los ao alojamento 
da escola. O que achei desnecessrio, deixei com vov.
        No horrio marcado, Maurcio veio me buscar. Caminhamos lado a lado.
        -Patrcia, minha tarefa junto a voc termina hoje.
        -Maurcio, sei que no gosta de agradecimentos,  porm de corao que lhe digo: obrigada! Espero no ter lhe dado muito trabalho.
        -Foi um prazer, tornamo-nos amigos e seremos para sempre.
        Entramos na Escola por outro porto. Conhecia aquela parte mas, naquele momento, me pareceu diferente, mais bonito. Viera para estudar, como aprendiz, isto 
fazia me sentir diferente. Estava curiosa para saber como seria este estudo to falado. Muito escutava encarnada e nestes meses na Colnia. O que realmente estudaria? 
Que iria de fantstico ver e conhecer?
        Emocionei-me. Meu corao batia apressado.
        
Fim.


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presente a algum que voc sinta estar precisando ou at mesmo emprestar quele que no tenha condies de comprar. O importante  a divulgao da boa leitura, principalmente 
literatura Esprita. Entre nessa corrente!
